Era uma manhã silenciosa em Almada, quando a notícia da partida de Teresa Rita Lopes atravessou as fronteiras do país, levando tristeza ao mundo literário português. Aos 87 anos, partiu aquela que foi uma das mais devotas guardiãs das palavras e dos segredos de Fernando Pessoa.
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, ao receber a notícia, recordou com pesar e respeito a vida notável de Teresa Rita Lopes. Na mensagem oficial, destacou a escritora como uma “das mais distintas e ativas pessoanas”, que contribuiu decisivamente para que o poeta se tornasse uma figura reconhecida e celebrada internacionalmente.
A história de Teresa começou longe das grandes luzes literárias, na cidade algarvia de Faro, em setembro de 1937. Cresceu numa época marcada por censuras e limitações, mas nem isso a impediu de seguir o caminho das letras. Em 1963, perseguida pela polícia política do Estado Novo, partiu para Paris, onde a sua paixão pelas palavras encontrou espaço para florescer ainda mais. Tornou-se professora na prestigiada Sorbonne, onde apresentou a sua tese pioneira “Fernando Pessoa e o Drama Simbolista”.
“Ainda há muito de Pessoa para dar a conhecer”
Ao regressar a Portugal, Teresa Rita Lopes dedicou-se apaixonadamente ao estudo da famosa “arca” de Pessoa, uma tarefa meticulosa e exigente. Cada manuscrito, cada nota rabiscada, cada heterónimo era analisado ao detalhe, permitindo-lhe organizar edições únicas e revelar aspectos desconhecidos do poeta.
Foi também graças a ela que o valioso espólio pessoano permaneceu em território nacional, impedindo que fosse vendido em Inglaterra durante o Estado Novo. Em entrevista ao Postal do Algarve em 2020, afirmou com convicção: “Ainda há muito de Pessoa para dar a conhecer”.
Entre as obras que lhe valeram reconhecimento e prémios, destacam-se “Cicatriz” (1996), que recebeu o Prémio Eça de Queirós, “Os Dedos os Dias as Palavras” (1987), e “Estórias do Sul” (2005). Além da escrita, Teresa Rita Lopes foi professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa, contribuindo também para a revista Orion. Hoje, enquanto Portugal se despede desta distinta académica e escritora, resta a certeza de que o seu legado continuará a inspirar gerações, mantendo viva a eterna busca pelas palavras escondidas nas gavetas da história.















