A alimentação mediterrânica é um dos modelos nutricionais mais estudados no mundo, resulta de um processo de aprendizagens de milénios, de conhecimentos sobre a natureza e o universo, de como usar os alimentos para evitar a doença, curar e manter a saúde.
A alimentação é um dos temas da actualidade e alvo de uma competição exacerbada.
A “daiata”, é o estilo de vida dos antigos gregos, incorporada nas normas religiosas e dietéticas dos monoteísmos, veiculada pelo conhecimento empírico e as ciências da antiguidade.

Sociólogo
A trilogia pão, azeite e vinho, foi suporte da economia agrícola grega, na hierarquia do panteão os gregos reconheceram Deméter, deusa dos cereais, Athena protectora dos olivais e da oliveira e Dionísio patrono da vinha e do vinho
Nos últimos milénios as populações da zona mediterrânica, região extensa e populosa que compreende a Europa do Sul, Norte de África e Medio Oriente, consideraram a agricultura e os alimentos produzidos pela natureza e pelo homem como dádivas divinas, incorporaram sacralizações, celebrações, benzeduras, orações às refeições, interdições e jejuns.
Com a mesma origem geográfica e princípios comuns, apresentam grande semelhança na base alimentar semi-vegetariana e também algumas diferenciações.
A Mesopotâmia, Fenícia e Grécia estiveram na origem da expansão do modo de vida a toda a geografia mediterrânica, incluiu a Ibéria, a sedentarização determinou aumento na produtividade da agricultura, reservas alimentares, cidades litorais e do comércio.
Os animais de carga necessários ao transporte e trabalho rural não eram consumidos.
A trilogia pão, azeite e vinho, foi suporte da economia agrícola grega, na hierarquia do panteão os gregos reconheceram Deméter, deusa dos cereais, Athena protectora dos olivais e da oliveira e Dionísio patrono da vinha e do vinho.
A influência helénica foi expansiva, tal como os fenícios os gregos fundaram colónias litorais e transmitiram os seus valores culturais ao Egipto, ao Norte de África e à Península Itálica, cuja parte sul foi designada por Magna Grécia. Os romanos durante as guerras púnicas contra Cartago, cidade que dominaram, ocuparam e povoaram a Península Ibérica e quase toda a Europa e a região mediterrânica.
As três religiões monoteístas surgidas em épocas distintas, foram resposta a necessidades de regulação de relações sociais, do comércio e costumes, com a fundação de centenas de cidades litorais, as ciências desenvolveram-se, surgiram línguas francas, o grego, latim e árabe.
As religiões do “Profeta, do Livro e do Deus Único” criaram normas alimentares que ainda hoje são seguidas, particularmente celebradas as festividades cíclicas, em Portugal é inquestionável a herança da cultura mediterrânica de norte a sul e nas ilhas
O cristianismo recebeu influências do helenismo e do judaísmo. A trilogia do pão, azeite e vinho está presente nos rituais religiosos, o pão como símbolo da fraternidade e de partilha entre os crentes, a hóstia contém a ideia de pertença e multiplicação.
Na Eucaristia, Jesus Cristo transformou o pão no próprio corpo, o vinho no seu sangue. Os azeites, os santos óleos, eram e são usados nos rituais de consagração de sacerdotes, na crisma e extrema-unção, utilizados na iluminação dos templos, entre outros usos.
O judaísmo, o primeiro dos monoteísmos, usou o termo hebraico kosher ou kasher significando “bom” ou “apropriado”, os alimentos são preparados de acordo com as leis judaicas da alimentação, as Kashrut. A Torá exige que os animais, nomeadamente bovinos, sejam abatidos de acordo com as normas religiosas.
As leis dietéticas do judaísmo, Kashrut, contemplam que carne e laticínios não podem ser misturados, conhecido é o preceito judaico “não cozer o cabrito no leite de sua mãe” (Êxodo 23: 19). Os animais abatidos, segundo as normas Kashrut, são salgados, nas carnes não podem permanecer réstias de sangue. Vinho e pão são utilizados nos rituais dos feriados religiosos e ceia judaica.
No Islão, as normas alimentares religiosas aconselhadas são designadas por Halal e as proibições são o Haram, regras que se aplicam também a comportamentos sociais.
Influenciada por experiências anteriores, a jurisprudência Islâmica procurou evitar contaminações e problemas sanitários. São interditas as carnes de porco e seus derivados, pela sua rápida deterioração em climas quentes, são proibidos o sangue ou produtos feitos com sangue, o álcool e produtos que provocam embriaguez e intoxicação, factores de conflitos nas festividades pagãs romanas.
No abate deve invocar-se Alah, o processo tem como objectivo reduzir a dor e sofrimento dos animais. O Alcorão proíbe o consumo da carne de animais carnívoros ou que vivem em terra como na água, caso de crocodilos, répteis e insectos.
São Halal a água, vegetais, legumes, frutas fresca e frutos secos, sementes, peixes e outros animais aquáticos, queijo processado através de coalho microbiano, leite de vacas, ovelhas, camelas e cabras, carnes de animais abatidos seguindo as normas islâmicas.
A etnomedicina e a medicina empírica tiveram papel relevante na difusão das prescrições religioso-sanitárias, nomeadamente pelo uso de plantas medicinais para fins terapêuticos, que hoje são a base fundamental da investigação e produção farmacêuticas.
O que se come e como se come definem uma cultura.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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