É fácil perdermo-nos entre as muitas novidades, mais ou menos recentes. Especialmente quando não se quer ler as sinopses, que muitas vezes revelam demasiado.
Mas depois há uma certa intuição que nos puxa para os bons livros, sem sabermos como ou porquê. Foi o caso desta maravilhosa surpresa.
A Mercearia Céu & Terra, de James McBride – considerado pela Time uma das 100 pessoas mais influentes de 2024 – foi um dos melhores livros de 2023 para o Washington Post, The New Yorker, Time e NPR/Fresh Air. A publicação é da Dom Quixote e a tradução é de Maria de Fátima Carmo.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Autor esclarece como este livro era inicialmente uma elegia ao antigo diretor de um campo de férias para crianças com deficiências, campo esse onde o autor trabalhou durante quatro verões, em jovem, há mais de 40 anos…
Em 1972, quando os trabalhadores de Pottstown, na Pensilvânia, escavavam as fundações de um novo empreendimento imobiliário, encontram um esqueleto no fundo de um poço. O mistério de quem seria ganha resposta, ao longo destas páginas, no corpo do texto, numa prosa enfeitiçante, ligeira, que entrelaça vários fios para contar a história dos Estados Unidos da América, terra de sonhos perdidos e de imigrantes.
Chicken Hill é um bairro decrépito onde viviam lado a lado imigrantes judeus e afro-americanos, partilhando ambições e desgostos. Chicken Hill era onde Moshe e Chona Ludlow viviam quando Moshe, no final dos anos 1920, decidiu admitir negros na sua casa de espetáculos, e onde Chona tinha a Mercearia Céu & Terra. Miss Chona, uma espécie de Santa Padroeira, sempre pronta a ajudar aqueles que nada têm, sem que o marido suspeite dos artigos que ela “vende fiado”. Afinal, “a vida na América era difícil, mas era livre” (p. 77), e embora muitos trabalhem com afinco em busca de uma oportunidade, nem todos conseguem de facto abrir a sua loja ou montar o seu negócio…
A confusão começa a instalar-se quando aparece um funcionário do estado em busca de um rapazinho surdo para o internar numa instituição. Chona e Nate Timblin, empregado negro de Moshe e líder oficioso da comunidade negra de Chicken Hill, procuram manter o rapaz a salvo. Mas será que conseguem?

Nos Agradecimentos, o autor esclarece como este livro era inicialmente uma elegia ao antigo diretor de um campo de férias para crianças com deficiências, campo esse onde o autor trabalhou durante quatro verões, em jovem, há mais de 40 anos… E, como é próprio das grandes obras de ficção, rapidamente o projeto inicial tergiversou e ganhou novo fôlego. Nem sempre de forma linear, cruzam-se aqui algumas histórias de diferentes personagens que se sobrepõem, adensando a intriga. Se quiséssemos simplificar, poder-se-ia resumir este livro como uma ode, acerca das dificuldades sentidas pelas pessoas que vivem à margem da América branca e cristã, e os laços comunitários que elas forjam como forma de sobreviver.
“Aos americanos importava o dinheiro. E o poder. E o governo. Os judeus não tinham nada disto: a sua obrigação era passar despercebidos na terra do leite e do mel e mostrar-se gratos por poderem circular livremente sem receber pontapés nos traseiros – ou pior.” (p. 77)
Há breves instantâneos, mais perto do final do livro, que nos levam a entrever o futuro não muito brilhante da América, quando a voz narrativa ganha novo fôlego e tece uma crítica à “mitologia americana de esperança, liberdade, igualdade e justiça”, neste romance que toma como principais personagens justamente os excluídos a quem usualmente se atribui as culpas de tudo o que está mal: os “escarumbas e os pobres” e os judeus “e os palermas brancos que tinham pena deles” (p. 410)

James McBride é um músico exímio e um dos mais reconhecidos escritores americanos da atualidade.
Em 2013 venceu o National Book Award com The Good Lord Bird.
É ainda autor dos romances The Color of Water, Miracle at St. Anna, Song Yet Sung e Deacon King Kong; do livro de contos Five-Carat Soul; e de Kill ’Em and Leave, uma biografia de James Brown.
Escritor residente da Universidade de Nova Iorque, foi agraciado com a Medalha Nacional para as Humanidades em 2016, e com o Prémio Biblioteca do Congresso para Ficção Americana 2024, atribuído ao conjunto da obra.
Foi considerado pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes de 2024.
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