O espanhol Rafael Ruiz chegou à reforma com uma decisão difícil pela frente. Depois de trabalhar durante décadas em Maiorca, concluiu que os cerca de 1.250 euros mensais de pensão que dizia receber não lhe permitiam ter o estilo de vida que imaginava para esta fase da vida.
A história foi divulgada pela revista francesa Marie France. O antigo nadador-salvador trabalhava nas piscinas municipais de Palma e não escondia a frustração perante o custo da habitação e das despesas do dia a dia na ilha espanhola. Segundo contou, tinha trabalhado durante cerca de 40 anos e considerava que a sua pensão lhe permitiria pagar uma casa arrendada e pouco mais em Maiorca.
“Em Maiorca sou infeliz e aqui consigo viver bem”
Foi a diferença no custo de vida que pesou na decisão. Rafael reconhecia que Maiorca continuava a ser uma ilha de que gostava, mas considerava que os preços da habitação e da alimentação se tinham tornado incompatíveis com o tipo de reforma que pretendia viver. Na Tailândia encontrou uma realidade diferente. «Com uma pensão de pouco mais de 1.000 euros, em Maiorca sou infeliz e aqui consigo viver bem», afirmou, numa declaração reproduzida pela Marie France.
Diz pagar apenas 100 euros de renda
Rafael instalou-se em Prachuap Khiri Khan, uma cidade costeira tailandesa afastada dos principais destinos de turismo de massas, onde vive com a companheira, Thit. Numa entrevista ao programa espanhol Y ahora Sonsoles, da Antena 3, afirmou pagar cerca de 100 euros mensais pelo arrendamento de uma casa semelhante a uma moradia em banda, com dois pisos, quartos, cozinha, sala, casa de banho e terraços. Segundo o próprio, a diferença no custo da habitação, da alimentação e dos serviços permitia-lhe ir regularmente a restaurantes, viajar dentro do país e ainda reservar parte do dinheiro para despesas imprevistas.
Trabalhou durante cerca de 40 anos
Rafael diz ter cerca de 40 anos de trabalho quando chegou à reforma e considerava difícil aceitar que a pensão resultante desse percurso lhe permitisse apenas suportar uma renda e pouco mais em Maiorca. A mudança para a Tailândia foi também facilitada pelas ligações pessoais que já tinha ao país. Rafael conhecera Thit através da Internet e manteve contacto com ela durante mais de um ano antes de se mudar.
Mudança trouxe-lhe uma vida mais tranquila
Nos primeiros meses, a experiência correspondeu às expectativas. O reformado descreveu uma rotina mais tranquila, com custos de alimentação, habitação e eletricidade significativamente inferiores aos que enfrentava em Maiorca. O contraste era particularmente importante porque Rafael não queria que a reforma significasse ficar em casa e limitar todas as despesas depois de uma vida dedicada ao trabalho. A mudança parecia, assim, ter resolvido o principal problema que o tinha levado a sair de Espanha. Mas uma doença acabaria por mostrar o outro lado de viver num país distante sem uma cobertura de saúde válida.
Ficou doente depois de o seguro de saúde ter terminado
Em setembro de 2025, Rafael desenvolveu problemas respiratórios graves e precisou de ser hospitalizado na Tailândia. Nessa altura, o seguro de saúde privado que tinha contratado já tinha caducado. Sem essa proteção, teve de começar a suportar diretamente os tratamentos e disse ao Última Hora que já tinha gasto cerca de 1.300 euros, valor superior a uma mensalidade da sua pensão. O antigo nadador-salvador queria regressar a Maiorca para receber tratamento, mas afirmou não estar em condições de enfrentar uma viagem aérea de cerca de 13 horas devido às dificuldades respiratórias.
Chegou a precisar da ajuda de outras pessoas
Amigos ligados às piscinas municipais de Palma iniciaram uma recolha de fundos para ajudar Rafael a pagar as despesas hospitalares e uma eventual viagem para Espanha. O reformado recebeu também donativos de pessoas que não conhecia. Mais tarde, contou que Marisa, uma mulher da região de Saragoça, lhe enviou cerca de 500 euros para comprar uma máquina de oxigénio. Rafael acabou por recuperar depois de várias semanas difíceis, embora tenha sofrido recaídas e necessitado novamente de assistência hospitalar.
Depois da experiência, reconheceu que viver sem seguro de saúde poderia causar despesas incomportáveis e disse estar a procurar uma nova apólice que lhe permitisse continuar na Tailândia com maior segurança.
Continuou na Tailândia depois da doença
Apesar das dificuldades, Rafael não decidiu regressar definitivamente a Espanha. Em novembro de 2025, já recuperado, afirmou que pretendia continuar a viver na Tailândia e casar-se com Thit durante o ano seguinte. As fontes consultadas não confirmam se a cerimónia chegou entretanto a realizar-se. A experiência hospitalar também não alterou a avaliação positiva que fez dos profissionais de saúde que o acompanharam. Segundo Rafael, o problema esteve sobretudo na ausência de um seguro válido e no custo que os tratamentos podem representar para um cidadão estrangeiro.
E um reformado português pode levar a pensão para o estrangeiro?
Uma pensão contributiva portuguesa pode, em regra, continuar a ser recebida mesmo quando o pensionista passa a residir noutro país. A Segurança Social esclarece que uma pensão portuguesa pode ser paga em qualquer país estrangeiro, independentemente da nacionalidade do beneficiário ou do país onde reside. O pensionista deve, contudo, manter atualizados elementos como a morada, os contactos e a conta bancária utilizada para receber a prestação. Outros complementos ou apoios sociais podem estar sujeitos a condições próprias de residência. Há ainda uma obrigação a ter em conta. Segundo a informação oficial atualmente disponível, a partir de 2027 todos os pensionistas da Segurança Social residentes no estrangeiro deverão realizar anualmente a prova de vida, sob pena de suspensão do pagamento até à regularização da situação.
Saúde pode ser o principal risco
Dentro da União Europeia, do Espaço Económico Europeu e da Suíça existem mecanismos de coordenação que podem permitir ao pensionista inscrever-se no sistema de saúde do país de residência através do documento portátil S1. Na Tailândia, o Cartão Europeu de Seguro de Doença e o documento S1 não são aplicáveis. Para países exteriores à União Europeia, a cobertura depende da legislação local e da existência de acordos internacionais. O portal Gov.pt alerta que muitos dos acordos celebrados por Portugal com países terceiros não garantem cuidados de saúde e recomenda que, quando não exista cobertura adequada, seja contratado um seguro de saúde completo antes da mudança.
Residência fiscal também tem de ser atualizada
A mudança para outro país pode alterar igualmente a residência fiscal do pensionista. A Autoridade Tributária determina que, quando a alteração de morada implica a passagem de residente para não residente, esta deve ser comunicada no prazo de 60 dias. Quem tem Cartão de Cidadão deve alterar a morada através dos serviços próprios do documento, sendo a informação depois atualizada junto da AT. Os residentes fiscais em Portugal são, em regra, tributados sobre a totalidade dos rendimentos obtidos em Portugal e no estrangeiro. Já os não residentes são tributados em Portugal pelos rendimentos aqui obtidos, sem prejuízo das convenções internacionais e das regras aplicáveis ao país de residência. Assim, um pensionista português pode seguir um caminho semelhante ao de Rafael e procurar um país onde a reforma tenha maior poder de compra. Mas a renda e a alimentação são apenas uma parte das contas: o acesso a cuidados médicos, o seguro de saúde, o visto, a fiscalidade e a distância em relação a Portugal podem alterar significativamente o custo real de passar a reforma no estrangeiro.
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