A economia de Marrocos está a acelerar a um ritmo inesperado e já há quem lhe chame a “Espanha low-cost”. Com previsões de crescimento do PIB na ordem dos 4% para este ano e os seguintes, o país começa a posicionar-se como uma nova potência regional graças ao turismo, à indústria automóvel e à estabilidade macroeconómica. Analistas citados pelo El Economista alertam que pode vir a ser um sério concorrente para Espanha e, por arrasto, para Portugal.
Esta comparação não é gratuita. O modelo marroquino assenta nos mesmos pilares que impulsionaram Espanha nos anos 60 e 70: investimento estrangeiro, mão de obra barata, proximidade à Europa e abertura ao turismo de massas. A diferença está nos custos, muito mais baixos em Marrocos.
Segundo uma nota recente do banco JP Morgan, Marrocos mantém “uma trajetória macroeconómica sólida” e tem vindo a captar investimento direto estrangeiro para setores de maior valor acrescentado. A indústria automóvel, em particular, está a crescer a olhos vistos e a gerar milhares de postos de trabalho.
Turismo e automóveis em alta
A economia marroquina cresceu 4,8% no primeiro trimestre de 2025, acima do esperado. O crescimento foi puxado pela recuperação da agricultura, pela robustez dos setores não agrícolas e pela maior procura interna, com a inflação em queda.
Só no primeiro semestre deste ano, segundo a mesma fonte, o país recebeu mais 16% de turistas face a 2024. E, ao mesmo tempo, foram fabricados mais de 350 mil veículos, um aumento de 36% em relação ao ano anterior. O setor automóvel já representa mais de 10% do PIB nacional, mais de 25% das exportações e emprega cerca de 220 mil pessoas.
Invasão chinesa na energia e baterias
Renault e Citroën têm operações de longa data no país, mas agora são as empresas chinesas que estão a liderar os novos investimentos. Estão previstas várias fábricas de baterias elétricas e componentes, com destaque para uma “gigafábrica” da Gotion High-Tech e unidades industriais da BTR New Material e Hunan Zhongke.
De acordo com a mesma fonte, grande parte da produção concentra-se nas zonas de Tânger e Kenitra, aproveitando a infraestrutura logística já existente e os baixos custos operacionais. Analistas acreditam que, se este ritmo continuar, Marrocos poderá ultrapassar países como Itália ou Polónia na produção anual de automóveis.
Estabilidade e energia barata
O país apresenta também estabilidade política e uma relação sólida com os Estados Unidos e a União Europeia. Donald Trump chegou a reconhecer a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, um apoio diplomático importante em tempos de incerteza global.
Outro trunfo são os preços baixos da energia. Graças ao forte investimento em fontes renováveis, como a solar e eólica, Marrocos beneficia de tarifas altamente competitivas, o que atrai indústria pesada e exportadora. Há quem diga que poderá tornar-se numa “bateria verde” para a Europa.
Uma ameaça direta ao sul da Europa?
A comparação com Espanha dos anos 60 não é apenas simbólica. Marrocos está a preparar a construção do maior estaleiro naval de África, em Casablanca, com ambições claras de rivalizar com infraestruturas do sul da Europa, incluindo estaleiros portugueses e espanhóis.
Tudo isto preocupa os analistas europeus, refere a fonte anteriormente citada. Se Marrocos continuar a captar investimento estrangeiro e a crescer nestes setores estratégicos, poderá abalar o equilíbrio competitivo da Península Ibérica, onde o turismo e a indústria automóvel continuam a ser pilares fundamentais.
Plano de longo prazo começou em 2021
Segundo o economista Stéphane Alby, do BNP, citada pelo El Economista, esta transformação começou a sério em 2021, quando Rabat lançou um plano de desenvolvimento ambicioso. Desde então, o número de projetos de investimento direto estrangeiro quintuplicou.
Além da mão de obra barata e da boa rede de exportação, o país tem uma vantagem difícil de replicar: energia acessível e sustentável. Para muitos especialistas, o potencial solar e eólico marroquino é dos melhores do mundo.
Tudo indica que o crescimento marroquino está para durar. E, embora ainda haja um fosso face às economias mais maduras da Europa, pode vir a ser impossível ignorar o dinamismo de um ‘vizinho’ que promete dar cartas no novo mapa industrial e turístico da região.
Leia também: Portugueses ‘escapam’: há uma nova regra para quem conduz em Espanha mas só ‘nuestros hermanos’ terão de a cumprir
‘
















