Em várias localidades espanholas, os condutores deparam-se com sinais de trânsito colocados de cabeça para baixo. À primeira vista pode parecer um erro, mas trata-se de uma forma de protesto silenciosa que ganhou força no último ano e que visa denunciar os problemas que afetam o setor agrícola e pecuário.
O fenómeno, que já tinha surgido noutros países europeus, voltou a espalhar-se em Espanha e está a chamar a atenção tanto de residentes como de viajantes ocasionais. Segundo o portal espanhol Mundo Deportivo, um vídeo gravado em Romanillos de Medinaceli, um pequeno povoado de Sória, mostra dois agentes da Guardia Civil a explicar o motivo: “Esta é uma forma de protesto, porque dizem que o mundo está ao contrário”.
A simplicidade do ato esconde uma mensagem profunda. Os agricultores pretendem ilustrar que a sua realidade diária está “do avesso”, marcada por custos crescentes, margens cada vez mais reduzidas e uma sensação de abandono por parte das autoridades. O sinal invertido funciona como metáfora visual dessa inversão do normal.
As críticas não se resumem à concorrência de produtos importados a preços mais baixos. A burocracia excessiva, a falta de respostas eficazes a fenómenos extremos como as secas prolongadas e o aumento generalizado dos custos de produção são alguns dos pontos que mais preocupam os trabalhadores do setor primário.
Uma mensagem que se espalha
A ação, inicialmente localizada, alastrou-se a diferentes regiões, incluindo a Catalunha, onde vários cartazes de entrada em povoações foram igualmente virados ao contrário. “Quisemos mostrar que as coisas continuam iguais e que o setor está de pernas para o ar”, declarou recentemente Valentí Roger, produtor pecuário, em entrevista ao canal RTVE.
Associações locais, como a Aragón Es Ganadería y Agricultura (AEGA), assumem com orgulho a autoria de várias destas intervenções. “Voltámos e não vamos parar até dar a volta a tudo. Somos os de baixo e vamos atrás dos de cima”, escreveram numa das suas últimas comunicações públicas.
Uma forma pacífica de protestar
A escolha deste método não é inocente. Ao contrário de bloqueios rodoviários ou manifestações ruidosas, virar placas não causa transtornos à circulação, não implica riscos imediatos e consegue, ainda assim, despertar curiosidade e debate.
As autoridades têm mostrado alguma tolerância perante este tipo de ação, reconhecendo o seu carácter pacífico e simbólico. No entanto, permanece por avaliar se a visibilidade conseguida se traduzirá em medidas concretas para aliviar as dificuldades do setor.
Uma luta em aberto
A inspiração francesa está presente: em várias aldeias do país vizinho já se tinha recorrido ao mesmo gesto como forma de chamar a atenção para as dificuldades do campo. Agora, em Espanha, a persistência da iniciativa indica que o mal-estar dos agricultores não dá sinais de abrandar.
Enquanto o setor primário enfrenta margens cada vez mais estreitas, os sinais virados ao contrário continuam a multiplicar-se, lembrando a quem passa que, para muitos, o mundo rural está literalmente “de pernas para o ar”, segundo refere o Mundo Deportivo.
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