Uma revisão internacional co-liderada por João Saraiva, presidente da associação Fish Etho Group e investigador do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR), concluiu que os peixes são animais sencientes, capazes de sofrer e de experienciar estados positivos, defendendo mudanças profundas na forma como são criados, capturados, estudados e protegidos.
O estudo, publicado no Journal of Fish Biology, reúne duas décadas de avanços científicos nas áreas da neurobiologia, cognição, dor, aquacultura, pescas, alterações climáticas, tecnologia e legislação, envolvendo 17 especialistas de instituições de nove países.
Segundo os autores, já existe evidência científica suficiente para justificar alterações nas práticas aplicadas aos peixes em diferentes contextos, desde a investigação científica até à aquacultura, pescas e conservação.
“Os peixes são animais muito mais complexos do que aquilo que se pensa. Já que estamos a confiar nos peixes como modelo experimental para guiar parte da nossa medicina, é bom que reconheçamos aquilo de que são capazes”, afirma João Saraiva.
Investigador do Algarve defende mudança nas práticas da aquacultura e pesca
O investigador algarvio considera que uma das grandes mudanças das últimas décadas resulta do uso crescente de peixes como modelos em neurociências, psiquiatria e biomedicina.
“Aí temos um panorama muito claro: os peixes são seres sencientes, capazes de sofrer e também de ter emoções positivas”, sublinha João Saraiva.
Na área da aquacultura, o estudo defende a necessidade de melhorar todo o ciclo de vida dos peixes cultivados, desde os sistemas de produção até ao transporte, manuseamento e abate.
A mudança passa por “melhorar a vida, não apenas a morte” dos peixes, através de ferramentas e métodos desenvolvidos em conjunto com a indústria.
Os autores defendem ainda que qualquer evolução nas pescas e na aquacultura deve ser feita em articulação com os setores envolvidos.
“Tudo tem de ser feito com o setor, não contra o setor. Seja na aquacultura, seja nas pescas”, afirma o investigador.
Alterações climáticas representam desafio crescente
A revisão científica identifica também as alterações climáticas como um dos principais desafios para o bem-estar dos peixes e para a sustentabilidade da aquacultura.
O aquecimento da água, fenómenos extremos, secas, surtos de agentes patogénicos e proliferação de microalgas podem afetar diretamente a saúde dos animais e a viabilidade das produções aquícolas.
“As alterações climáticas estão a afetar o bem-estar dos peixes de uma forma muito direta”, alerta João Saraiva.
O estudo sublinha ainda o potencial das novas tecnologias, como sensores, inteligência artificial e sistemas de monitorização em tempo real, para melhorar a avaliação do bem-estar animal.
“A tecnologia é uma aliada. Não substitui a inteligência humana nem as decisões humanas, mas permite-nos agir de forma mais rápida, mais fina e, muitas vezes, proativa”, refere o investigador.
Especialistas pedem legislação mais exigente
No plano legal, os autores defendem que os peixes devem beneficiar de uma proteção comparável à dos animais terrestres, adaptada às especificidades do meio aquático.
A revisão destaca igualmente a importância dos sistemas de certificação para informar os consumidores e incentivar melhores práticas por parte de produtores e distribuidores.
“Temos um dever ético de tratar bem os animais que nos alimentam”, afirma João Saraiva.
Apesar dos avanços científicos, os investigadores reconhecem que continuam a existir lacunas em áreas como a validação de tecnologias, indicadores de bem-estar e métodos de abate.
Ainda assim, os autores defendem que a incerteza científica não deve servir para adiar mudanças. “Há muitas áreas em que o desconhecimento ainda é grande, mas o artigo aponta como se pode abordar essas áreas e mostra onde estão as soluções e os caminhos para o futuro”, conclui João Saraiva.
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