O turismo de massas atravessa um dos momentos mais tensos em Espanha, com protestos a multiplicarem-se nas principais zonas balneares do país. No entanto, uma intervenção inesperada numa emissão televisiva britânica reacendeu a discussão relativamente a este destino turístico, e as declarações não deixaram ninguém indiferente.
Durante o programa Jeremy Vine On 5, transmitido pelo canal britânico Channel 5, uma espectadora defendeu com entusiasmo o impacto positivo dos turistas do Reino Unido em Espanha. O vídeo da chamada, partilhado na conta oficial do programa no TikTok, tornou-se viral e está a gerar milhares de reações nas redes sociais.
“Sempre irei a Espanha”, afirmou a ouvinte, convicta. “Quando lá estou, não me aproveito. Faço questão de comer toda a comida espanhola e de aproveitar tudo. Abraço completamente a cultura”, acrescentou. Mas foi a sua visão sobre o papel dos britânicos na economia espanhola e neste destino turístico que mais surpreendeu: “Se não fosse por nós, e por todo o dinheiro que gastamos, Benidorm, por exemplo, ainda seria uma linda vila de pescadores intocada.”
Uma declaração que toca num nervo exposto
Segundo o jornal espanhol AS, a ouvinte prosseguiu com uma crítica ao Brexit, admitindo: “Isso lixou-nos. Eles ficaram ofendidos, e com razão, quando fizemos aquilo.” Ainda assim, garantiu que nada a impede: “Mas uma pequena manifestação não me vai impedir de concretizar o meu sonho de viver em Espanha. Eu vou.”
Estas declarações surgem num contexto particularmente sensível para o setor turístico espanhol. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o turismo representou em 2023 mais de 12 % do PIB do país e gerou cerca de 2,5 milhões de postos de trabalho.
Em 2024, Espanha atingiu um novo recorde com 93,8 milhões de turistas internacionais e um gasto total superior a 126 mil milhões de euros. O Reino Unido manteve-se como o principal país emissor, com quase 18 milhões de visitantes.
Cidades à beira da saturação
Apesar dos números expressivos, o turismo em larga escala tem provocado reações cada vez mais hostis por parte das populações locais. Várias cidades costeiras, como Barcelona, Palma de Maiorca, Málaga e San Sebastián, têm assistido a manifestações com milhares de pessoas a exigir limites ao modelo atual.
Entre abril e maio, entre 20 mil e 50 mil pessoas participaram em protestos nas Canárias sob o lema “As Canárias têm um limite”, pedindo uma moratória ao crescimento neste destino turístico. Em Barcelona e Maiorca, os protestos mais recentes incluíram pistolas de água e faixas simbólicas dirigidas aos turistas, com frases como “estão a expulsar-nos das nossas cidades”.
Estas ações refletem o descontentamento com a pressão sobre os serviços públicos, a subida dos preços da habitação e a perda de identidade dos bairros mais antigos, agora transformados num destino turístico quase exclusivo.
Modelo turístico sob pressão social
Neste cenário, as palavras da espectadora britânica parecem colidir com a realidade vivida por muitas comunidades locais. O seu direito a desfrutar de Espanha sem restrições é compreensível, mas choca com o apelo crescente à moderação por parte dos residentes.
De acordo com o AS, a tensão crescente em torno do turismo em Espanha revela um problema mais profundo: um modelo económico altamente lucrativo, mas cada vez menos sustentável do ponto de vista social. A questão já não é se o turismo é bem-vindo, mas de que forma e com que limites deve ser gerido.
A crise de legitimidade que o turismo enfrenta em várias zonas do país exige respostas urgentes. Enquanto isso, declarações como a da espectadora britânica não deixam de evidenciar as diferentes formas como este fenómeno é percecionado, dependendo do lado em que se está.
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