Na pressa do dia a dia, são muitos os que recorrem a tábuas de cortar em plástico pela sua leveza, durabilidade e preço acessível. No entanto, estudos recentes levantam sérias dúvidas quanto à segurança deste hábito aparentemente inofensivo. A investigação sugere que, só com o uso deste tipo de tábua, uma pessoa pode ingerir até 50 gramas de microplásticos por ano, o equivalente ao peso de dez cartões de crédito.
Num dos trabalhos mais citados, publicado na revista científica Environmental Science & Technology, os investigadores testaram o impacto das tábuas feitas de polietileno e polipropileno, dois dos plásticos mais comuns. As conclusões impressionam: durante a preparação diária de alimentos, é possível libertar milhões de partículas invisíveis, que acabam por ser ingeridas sem darmos conta.
Ainda que invisíveis ao olho humano, estas partículas podem acumular-se no organismo. Estudos anteriores já tinham revelado a presença de microplásticos no sangue, nos pulmões e até na placenta. Este novo dado, vindo diretamente da bancada da cozinha, coloca uma vez mais o tema na ordem do dia.
Fragmentos libertados no corte dos alimentos
Por detrás desta descoberta está a análise do número de microplásticos libertados durante o corte de legumes numa tábua nova. No caso do polietileno, foram detetadas entre 14 a 71 milhões de partículas por ano; no caso do polipropileno, o número subia para cerca de 79 milhões. Uma quantidade que, somada ao longo dos meses, ultrapassa largamente o que muitos imaginariam estar a ingerir.
Os cientistas explicam que a principal causa desta contaminação é o atrito constante da faca sobre a superfície da tábua, libertando fragmentos minúsculos de plástico. E mesmo que estes pedaços sejam microscópicos, não passam despercebidos ao organismo, que os acumula silenciosamente.
A preocupação não é nova. Em investigações anteriores, já se tinham detetado partículas de microplástico em peixe embalado sobre plástico, carne cortada em tábuas de talho e até em sal marinho. O que muda agora é a escala: a tábua de cortar, presente em praticamente todas as cozinhas, surge como uma das fontes mais directas de exposição.
Para os investigadores, é importante que os consumidores estejam informados e tomem decisões conscientes. Embora não exista uma regulamentação específica sobre o uso doméstico destas tábuas, os dados disponíveis apontam para a necessidade de precaução.
Alternativas mais seguras
Optar por tábuas de madeira, bambu ou aço inoxidável pode ser uma alternativa mais segura. Além de mais resistentes ao corte, estes materiais não libertam microplásticos durante o uso quotidiano. A troca pode parecer um pormenor, mas os investigadores garantem que fará diferença a longo prazo.
“Estimamos que uma pessoa possa ingerir entre 7,4 g e 50,7 g de microplásticos por ano com o uso de tábuas de polietileno e cerca de 49,5 g com tábuas de polipropileno”, refere o estudo da Environmental Science & Technology. Em termos práticos, são dez cartões de crédito diluídos ao longo de um ano.
Embora o impacto real dos microplásticos na saúde ainda esteja a ser estudado, muitos especialistas defendem o princípio da precaução. Os efeitos a longo prazo, dizem, poderão demorar anos a manifestar-se, mas a acumulação silenciosa é real.
A cozinha, espaço central na vida familiar, pode também ser ponto de entrada para substâncias indesejadas. Esta descoberta recorda que, muitas vezes, as escolhas mais simples, como o tipo de tábua, podem ter consequências inesperadas.
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