A presença portuguesa espalha-se pelos quatro cantos do mundo, desde pequenas comunidades em cidades cosmopolitas até ilhas distantes onde ninguém imaginaria ouvir falar português. É surpreendente descobrir que, em pleno coração das Caraíbas, existe uma ilha onde metade dos residentes têm raízes lusas. Esta ilha paradisíaca é um exemplo vivo de como Portugal deixou marcas em locais inesperados.
Ouvir português num recanto longínquo das Caraíbas pode surpreender muitos viajantes, mas na ilha de São Bartolomeu, mais conhecida internacionalmente como Saint-Barthélemy ou simplesmente St. Barth, metade dos residentes tem raízes em Portugal.
A presença lusa começou timidamente nos anos 80 e tornou-se, em poucas décadas, um dos pilares da vida local, criando uma curiosa ponte cultural entre o Minho e este paraíso de águas turquesa, refere o NCultura.
Chegada dos primeiros trabalhadores portugueses
Tudo começou em 1981, quando a companhia elétrica local contratou um grupo vindo do norte de Portugal para construir uma central geradora. Pouco depois surgia a primeira firma de construção civil de capitais portugueses na ilha, abrindo caminho a outros empreiteiros. A qualidade do trabalho convenceu rapidamente franceses, suecos e norte-americanos que ali investiam em turismo e imobiliário.
Crescimento após o furacão Luis
Em 1995, o furacão Luis devastou St. Barth, destruindo centenas de edifícios. A reconstrução exigiu mão de obra qualificada em grande escala, levando o contingente português a passar de cerca de 250 para mais de 2.000 trabalhadores em menos de cinco anos.
Hoje em dia, estima-se que vivam ali perto de 3.000 portugueses, sobretudo oriundos de Braga, Guimarães, Barcelos e Valença, responsáveis por grande parte das obras de luxo que marcam a paisagem desta ilha paradisíaca, refere a mesma fonte.
Comunidade integrada com sotaque minhoto
Os homens continuam a predominar na construção, mas há cada vez mais portuguesas em serviços de limpeza, hotelaria, comércio e, mais recentemente, em áreas como engenharia, enfermagem ou advocacia. Muitos abriram pequenos negócios, incluindo restaurantes onde se serve bacalhau à Brás e se ouve fado nas noites de fim de semana.
Tradições que resistem ao tempo
A Associação Cultural Portuguesa de Saint-Barth organiza arraiais, noites de São João e torneios de sueca durante a baixa temporada. Nos convívios mais concorridos não falta “pica no chão”, caldo verde e vinho verde importado em contentores partilhados. Há também missas mensais em português na igreja de Gustavia, celebradas por um padre convidado da Diocese de Angra.
História de colónias e trocas de bandeira
Descoberta por Cristóvão Colombo em 1493, a ilha recebeu o nome de Bartolomeu, irmão do navegador. Ao longo dos séculos, mudou de mãos entre franceses, cavaleiros de Malta e suecos, até regressar em definitivo à tutela francesa em 1878.
Desde 2007 é uma coletividade ultramarina da República Francesa, utilizando o euro e beneficiando de um estatuto fiscal próprio que isenta os residentes de imposto sobre o rendimento.
Turismo de luxo e influência lusa
St. Barth tornou-se refúgio de milionários a partir dos anos 50, quando David Rockefeller construiu a primeira moradia de grande escala. Desde então, a curta pista do aeroporto Gustaf III recebe jatos privados carregados de celebridades que procuram discrição.
Hotéis de renome como o Eden Rock, Cheval Blanc ou Rosewood empregam dezenas de portugueses, reconhecidos pela sua capacidade de adaptação e dedicação ao trabalho.
Desafios e oportunidades para quem fica
O custo de vida figura entre os mais altos do mundo, refere o NCultura. Uma renda mensal pode ultrapassar os 4.000 euros e muitos trabalhadores optam por viver em quartos partilhados. Ainda assim, os salários pagos em dólares e euros atraem jovens que enviam remessas regulares para Portugal. Vários casais mistos já fixaram família na ilha, contribuindo para uma segunda geração luso-saint-barth.
Algumas curiosidades sobre São Bartolomeu
Aterrar em St. Barth é experiência reservada a pilotos experientes, pois a pista de apenas 650 metros termina junto à praia de St. Jean e exige uma descida íngreme sobre a colina, sendo considerada uma das aproximações mais desafiantes do mundo.
Apesar de utilizar o euro, a ilha pratica um regime fiscal autónomo, sem IVA, o que atrai turistas para compras de produtos de luxo durante todo o ano. Uma curiosidade adicional é que São Bartolomeu tem uma das maiores taxas de restaurantes per capita do mundo, contando com mais de 70 restaurantes gourmet para uma população residente inferior a 10 mil pessoas, o que demonstra o peso do turismo de luxo no seu quotidiano.
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