O Centro de Recuperação de Animais Marinhos da Catalunha (CRAM), a 30 de maio, recebeu mais um alerta. Um exemplar de manta-diabo tinha dado à costa em Badalona, junto a Barcelona, no Mar Mediterrâneo. Não era caso único. Dias antes, outro tinha surgido em Castelló d’Empúries, Girona. E antes disso, um mergulhador encontrou outro animal semelhante.
A situação repete-se desde meados de maio e soma já cerca de 25 encalhes. De acordo com a Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), o fenómeno é “inédito” e está a gerar preocupação entre cientistas e autoridades. “Estamos perplexos”, afirma José Luis Crespo, do Oceanogràfic de Valência, que está envolvido nas investigações.
Uma série de encalhes sem precedentes
As mantas apareceram sobretudo em praias da Catalunha (nove casos) e da Comunidade Valenciana (nove), além de três nas Baleares e duas na Andaluzia. Em 2024 tinham sido registados apenas dois encalhes, e em todo o ano de 2023 houve apenas um.
Lucía Garrido, investigadora do CRAM, recorda que “no ano passado foi identificada a primeira raia viva encalhada em toda a história do centro”. O salto para mais de duas dezenas num só mês foi suficiente para pôr em marcha um grupo técnico de emergência.
Gigantes discretas do Mediterrâneo
A espécie em causa é a Mobula mobular, uma raia gigante que pode atingir até quatro metros de envergadura. Filtra plâncton em mar aberto e é o único mobulídeo residente no Mediterrâneo. Normalmente discreta e de hábitos pelágicos, raramente se aproxima da costa.
De acordo com a IUCN, está classificada como “Em Perigo” devido à captura acidental em redes, poluição e alterações ambientais. A sua presença em terra, viva ou morta, é sempre sinal de alarme.
Causas ainda desconhecidas
Para já, os cientistas não conseguem apontar uma causa única. “Só sabemos que chegam em muito mau estado físico”, explica Crespo. A UAB considera que o fenómeno poderá resultar de «múltiplos fatores simultâneos».
Entre as hipóteses em estudo estão partos stress-induzidos, doenças ainda não identificadas, desorientação provocada por ruído subaquático ou interações com artes de pesca. O aumento da temperatura da água foi, por enquanto, descartado.
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Grupos de trabalho em ação
A resposta ao fenómeno tem sido coordenada pelo Ministério da Transição Ecológica, em parceria com a UAB, o CRAM, o Oceanogràfic de Valência e o ICM-CSIC. As comunidades autónomas mais afetadas estão envolvidas nas reuniões semanais.
As equipas dividem-se entre o acompanhamento de animais encontrados com vida, geralmente feridos e em stress, e a realização de necropsias nos casos fatais. O objetivo é recolher dados biológicos e ambientais que permitam traçar padrões.
O que fazer se encontrar uma manta?
As autoridades pedem à população que não toque nos animais e que ligue de imediato para o 112. Segundo o CRAM, as mantas são “altamente stressáveis” e podem reagir com movimentos bruscos, colocando em risco banhistas próximos.
Mesmo quando imóveis, não devem ser empurradas de volta para o mar nem molhadas nas brânquias. Os técnicos alertam ainda para o risco de acidentes: “Uma simples batida de barbatanas pode causar muitos danos”, refere Garrido.
Verão decisivo para a investigação
As análises laboratoriais estão em curso e os primeiros resultados só devem ser divulgados no início do outono. Até lá, os investigadores vão continuar a monitorizar novos casos e a recolher dados.
Entre as medidas futuras em avaliação estão o reforço das zonas de proteção marinha e uma possível revisão das quotas de pesca de superfície, caso se confirmem interações negativas com a espécie.
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