Sou militante socialista desde os 14 anos, através da Juventude Socialista, e desde os 18 no Partido Socialista. Ao longo de mais de duas décadas de militância ativa, fui coordenador concelhio durante cerca de dez anos, integrei órgãos concelhios, locais e nacionais do PS e exerci funções como deputado municipal durante oito anos. Sempre fui uma voz ativa, com convicções próprias, dizendo o que pensava mesmo quando isso não agradava a estruturas instaladas, interesses internos ou lógicas de poder consolidadas.
A minha intervenção política esteve sempre ligada à minha formação e prática profissional. Sou arquiteto, com foco e especialização em urbanismo, e estive diretamente envolvido na génese da proposta das Áreas de Reabilitação Urbana. Essa experiência mostrou me, na prática, algo essencial. Quando existem decisões políticas corretas, sustentadas tecnicamente e orientadas por visão estratégica, o país avança. Quando não existem, o país empanca. A política pode transformar realidades ou bloqueá las. Tudo depende de quem decide e da coragem com que decide.
Foi por isso que sempre estive ao lado do Partido Socialista. Porque acreditei. Porque quis acreditar que “agora” seria diferente e melhor. Que “agora” se faria mais. Que “agora” usaríamos o poder político para colocar Portugal onde deve e pode estar, valorizando as nossas forças e oportunidades em vez de fazermos, como tantas vezes fizemos, exatamente o contrário, valorizar ameaças e fraquezas até levar o país ao ponto em que hoje se encontra.
Portugal teve cinquenta anos de estabilidade democrática, acesso a fundos europeus em escala histórica, uma posição geográfica estratégica e recursos humanos excecionais. Ainda assim, chegámos a um estado de fragilidade estrutural profunda. Perdemos indústria, capacidade produtiva, autonomia estratégica e ambição coletiva. Aceitámos políticas que incentivaram o abandono da produção, o adiamento das reformas estruturais e a dependência crónica. Estas escolhas não foram inevitáveis. Foram políticas. E foram tomadas, maioritariamente, pelos partidos que governaram o país durante este período.
Continuo a afirmá lo com clareza. Sou socialista. Sinto me socialista. Mas da base do socialismo. Do socialismo que defende princípios, mérito, justiça social, responsabilidade e exigência. Não deste socialismo esvaziado, capturado por aparelhos internos, onde os ideais são frequentemente sacrificados em nome de equilíbrios de poder, interesses instalados e lógicas de sobrevivência partidária.
A minha opinião sobre António José Seguro enquadra se exatamente neste contexto. Seguro não conseguiu manter a sua própria liderança enquanto secretário geral do PS. Foi derrubado por figuras da cúpula do partido, pelos seus pares, e substituído por quem viria a ser primeiro ministro. Mais tarde, assistimos a um episódio que levou o país a eleições antecipadas, desencadeado por um erro de confusão de nomes idênticos, aproveitado politicamente como gesto ensaiado e de interesse pessoal, que culminou na apresentação de uma carta de demissão ao Presidente da República. Seguiu-se a habitual dança das cadeiras do poder. O PS acabou por facilitar a entrada do PSD no governo, num processo em que o interesse do país ficou claramente em segundo plano.
O que aconteceu com Pedro Nuno Santos foi, para mim, ainda mais revelador. Independentemente de concordâncias totais ou parciais, estava ali alguém com ideais verdadeiramente socialistas, capacidade intelectual, visão estratégica e enorme capacidade de trabalho. Alguém que podia fazer diferente e melhor. Precisamente por isso, não foi apoiado. Foi deixado cair. Derrubado não pela oposição, mas pela falta de apoio interno da cúpula e de figuras de alto relevo do próprio partido.
Ao longo dos anos aprendi algo que custa admitir. Dentro do PS existe um ciclo perverso. Quando alguém atinge o topo e se torna um “notável”, prefere, mesmo na sombra, que o sucessor não seja tão bom ou melhor do que ele. Não para servir o país, mas para não ofuscar o seu legado. Assim, torna se quase cíclico que, depois de um “notável”, surja um líder frágil, lançado aos lobos pelo próprio sistema interno, aceitando-se até a derrota eleitoral apenas para provar que o anterior é que era. O partido chega ao ponto de preferir perder para manter a narrativa do passado.
Foi aqui que percebi que algo estava profundamente subvertido. Um partido que prefere perder a permitir que alguém fora do seu círculo de notáveis brilhe por mérito próprio deixou de respeitar os ideais que diz defender. E quando isso acontece, a fidelidade partidária deixa de ser virtude.
É neste contexto que afirmo, com consciência e convicção, a minha escolha por André Ventura como candidato a Presidente da República.
Não me revejo na base ideológica do partido de André Ventura. Nunca me revi. Reconheço as lacunas, sobretudo na matriz ideológica que esteve na origem do seu crescimento. Mas também reconheço aquilo que muitos fingem não ver. Ventura representa uma rutura real com a alternância instalada entre PS e PSD, que há décadas se comportam como se fossem donos da democracia.
Muito do que se aponta como radicalismo é, na verdade, estratégia de comunicação e marketing político. Quem quiser compreender, compreende. Quando chegar ao exercício efetivo do poder, Ventura estará, como todos os outros, condicionado pela necessidade de responder a quem o elegeu. A diferença é que não faz parte da dança das cadeiras instalada.
O verdadeiro radicalismo, hoje, não está no novo. Está em quem, por medo de perder a cadeira, transforma o novo no inimigo da democracia. Está em quem chama de burros a todos os que votam diferente. Está em quem se arroga o direito de decidir quem pode ou não ser alternativa, como se cinquenta anos sentados no poder fossem sinónimo de virtude democrática.
Não escrevo estas palavras por ressentimento nem por oportunismo. Escrevo por convicção. Prefiro o risco consciente da mudança à certeza da continuidade falhada. Prefiro alguém que incomode o sistema a alguém que o tranquilize. Porque o país não precisa de tranquilidade política. Precisa de coragem.
Sou socialista nos valores. Continuarei a sê-lo. Mas quando a fidelidade partidária entra em conflito com a convicção, escolho a convicção. Sempre.
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