Com o mau tempo que tem assolado o nosso território parece que as eleições presidenciais ficaram para 2º plano. Costuma dizer-se que “tudo tem uma importância relativa”. Face às tragédias humanas e materiais que infelizmente ocorreram na semana passada, sobretudo na zona Centro do país, parece que tudo o resto tem pouca importância.
Além disso, com os resultados obtidos na 1ª volta, o apoio a Seguro de (quase) todos os candidatos que não passaram à 2ª volta e os resultados nas sondagens, quase que parece não valer a pena ir votar.
Mas vale, não só porque votar é, simultaneamente, um direito e um dever cívico, mas porque dos resultados obtidos decorrem implicações reais para a vida das pessoas, não apenas no imediato, mas num espaço temporal de pelo menos 5 anos.
Na sociedade imediatista e consumista em que vivemos, a tendência é para decidir e agir na perspetiva do curto prazo, pois o futuro é muito incerto, com muitos fatores que não controlamos, parecendo preferível apostar no aqui e agora.
É importante saber viver o aqui e agora, estar consciente e verdadeiramente presente naquilo que fazemos em cada momento, como defendem as correntes atuais ligadas às práticas de mindfulness.
Mas isso não deve implicar uma atitude imediatista e consumista, pois nesta o nível de consciência na vivência do presente é reduzida, sendo as tomadas de decisão condicionadas por fatores externos, dos quais muitas vezes o sujeito nem tem perceção.
Nas eleições do próximo domingo, os dois candidatos em jogo não poderiam ser mais diferentes, o que poderá facilitar a tomada de decisão.
Ocorreu apenas um debate entre os candidatos nesta 2ª volta, colocando-se a questão sobre se seria suficiente para o debate de ideias. Sinceramente, acho que nem era necessário haver um debate, dada a diferença tão evidente entre os candidatos. E, sobretudo, porque um dos candidatos nem sabe debater, interrompendo, dizendo banalidades, não permitindo desenvolver ideias e fazendo um constante bullying político
Temos realmente dois candidatos muito diferentes na forma e no conteúdo, pelo que se torna fácil para qualquer pessoa decidir em quem votar.
De um lado, temos um candidato com vasta experiência política, incluindo experiência governativa, com uma vida pautada pela honestidade, seriedade, moderação, solidariedade e outros valores que se enquadram naquilo que a social democracia e o socialismo democrático preconizam.
Do outro, temos um candidato egocêntrico e populista, um “cata-vento” constante à procura de ir ao encontro da opinião predominante no imediato, mudando de posição consoante aquilo que tem mais popularidade em cada momento (ex. do SNS, da reforma laboral, etc), quase parecendo que está a dar voz ao que a maioria das pessoas sentem e pensam num dado momento. Ventura é realmente muito eficaz a identificar problemas e a dimensioná-los, mas raramente apresenta soluções coerentes e sustentáveis. A isto associa-se um discurso de extrema direita, quase parecendo uma cassete sobre os temas da corrupção, imigração e segurança, dando uma aparente estabilidade a um discurso vazio de ideias ou de conteúdo, muitas vezes com uma fundamentação falsa.
É um discurso de populismo demagógico, de divisionismo, radicalismo, chegando por vezes a roçar o ódio, quase parecendo justificar fenómenos de racismo, xenofobia e homofobia.
Conforme já tem sido dito, trata-se de uma “imitação barata” de Trump, em cuja tomada de posse Ventura fez questão de estar presente.
Nas ditaduras ou regimes imperialistas, o líder começa por ser eleito democraticamente, mas depois começa a aumentar os seus poderes e a controlar os media. Foi o caso do próprio Hitler, é o caso de Putin e, mais recentemente, de Trump. Por exemplo, têm vindo a ser selecionados por Trump os jornalistas que podem fazer reportagens na Casa Branca, passando a haver apenas uma versão dos acontecimentos, a do Presidente, via verde para poder divulgar “fake news” que, passado algum tempo, parecem ser a verdade.
No nosso país, para já, sabemos que Ventura defende uma revisão constitucional para aumentar os poderes do Presidente da República. Sobre o controlo dos media, para além das redes sociais, esperemos que não lhe seja dada oportunidade para tal, pois sabemos que Ventura é especialista na profusão de notícias falsas através das redes sociais. Um estudo recente, realizado pela LabCom — Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), verificou que Ventura foi o principal responsável pela desinformação durante as quatro semanas de pré-campanha e na campanha eleitoral da 1ª volta para as presidenciais, atingindo 85,7% de 7,7 milhões de visualizações de notícias falsas que circularam nas redes sociais, através de conteúdo manipulado, falsificação de informação e uso de contexto falso.
Um exemplo ocorreu em plena campanha da 1ª volta das eleições presidenciais, numa arruada em Viseu e depois difundido pelo próprio nas redes sociais, quando acusou o governo de comprar espreguiçadeiras em vez de macas para hospitais. Segundo ele, “o Hospital de Santo António no Porto, como já não há dinheiro para comprar macas, andam a comprar espreguiçadeira! Era disto que se devia falar na campanha”. No entanto, o Hospital veio esclarecer que as 40 espreguiçadeiras rígidas foram adquiridas em 2017, e não na atualidade, nunca tendo sido utilizadas, e fizeram parte do Plano de Catástrofe, para situações extremas, como a entrada simultânea de múltiplas vítimas de grandes acidentes ou desastres naturais.
Mas a desinformação ou notícias falsas são uma constante em Ventura. Um exemplo também recente de que todos se recordam foi a acusação que fez de Marcelo estar a gastar o dinheiro dos contribuintes para ir a um festival de hambúrgueres na Alemanha. Ora, no dia 13 de setembro de 2025, Marcelo foi efetivamente a Berlin, ao “Burgerfest”, mas tratava-se da “Festa dos Cidadãos” (tradução correta de “Burgerfest”), tendo Portugal sido o país homenageado.
A diferença entre os dois candidatos também foi bem visível na atuação que tiveram após a tempestade Kristin. Logo no dia a seguir, Seguro visitou Leiria, mas sem jornalistas a acompanhá-lo. A seguir também Ventura visitou Leiria, mas com toda a comunicação social que conseguiu arranjar e com a “claque” do costume. De salientar que na claque habitual de Ventura costuma estar o candidato do Chega à Câmara Municipal de Faro, Pedro Pinto, que raramente veio a Faro. Nesta quase arruada em Leiria, Ventura procurou tirar fotos e ser filmado a carregar um carro com mantimentos que seriam distribuídos pelo “povo”. Claro populismo demagógico e aproveitamento político, como aliás foi referido pelo próprio Presidente da Câmara Municipal de Leiria.
“Chega” de Ventura! Concorre a tudo. Tanto quer ser Primeiro-Ministro, como Presidente da República. E depois os outros é que procuram os “tachos” (usando a sua linguagem).
Nesta 2ª volta, Ventura primeiro tentou “colar” Seguro ao Socialismo, apresentando-se como o representante de todo o centro direita do espectro político. Mas, ao verificar que figuras de todos os partidos ditos mais à direita do PS, nomeadamente do PSD, CDS e IL, expressaram publicamente o seu apoio a Seguro, mudou o discurso (mais uma vez) para referir que Seguro representaria as elites, o sistema, enquanto ele representaria o povo.
Enfim, trata-se de um oportunista e espero que no próximo domingo os portugueses, em particular os Algarvios, vão votar e votem pelo Seguro, em vez de optarem por entrar numa (a)Ventura que tem tudo para não correr bem.
O Algarve foi o único distrito de Portugal Continental em que Ventura ganhou na 1ª volta. Talvez até seja um indicador desta região ser aquela com mais baixo nível socioeducativo e cultural do país. Mas espero que, na 2ª volta, os algarvios tenham um pouco mais de lucidez.
Em todo o caso, o grande problema de Seguro nestas eleições parece ser a abstenção. Quanto maior a abstenção pior para Seguro, porque Ventura tem os votos dos seus “fans” assegurados. Sim, os eleitores de Ventura são realmente “fans”, que seguem o seu líder e parecem acreditar nele sem qualquer capacidade critica.
Se na 1ª volta as sondagens levaram as pessoas a ir às urnas, devido a um empate técnico entre vários candidatos, tornando todos os votos úteis para decidir quais os candidatos que passariam à 2ª volta (ver https://postal.pt/politica/a-tendencia-para-a-auto-profecia-das-sondagens-por-saul-neves-de-jesus/), agora as sondagens dão uma vantagem confortável a favor de Seguro, parecendo não valer a pena ir votar, sobretudo se o clima não ajudar, pois está prevista chuva para todo o país.
Mas a vitória da abstenção será uma vitória para Ventura, que conseguirá atingir um resultado percentualmente mais elevado, levando-o a aumentar o autoelogio como líder da oposição e como candidato cada vez mais provável a Primeiro-Ministro, não sendo bom para nenhum partido, a não ser para o Chega, e sobretudo, não será bom para os portugueses, nem para a democracia.
Mas, afinal, só depende de nós e do nosso voto!
Por isso, independentemente das sondagens, e faça chuva ou faça sol, é importante ir votar no próximo domingo.
Leia também: A tendência para a auto-profecia das sondagens | Por Saúl Neves de Jesus














