A violência pode deixar marcas no corpo, mas existem outras formas de violência que são impercetíveis aos olhos, deixam marcas que não aparecem em fotografias, não ficam registadas nos exames médicos, mas que permanecem na forma como a pessoa passa a olhar o mundo e na forma como passa a olhar para si própria.
A violência, nas suas diferentes formas – física, psicológica, sexual, doméstica ou institucional – raramente se extingue quando o ato termina. Muitas vezes prolonga-se no tempo, através de memórias, medos persistentes, dificuldade em confiar, culpa que não pertence a quem a sente e vergonha que nunca deveria ter sido carregada.
Como é possível alguns de nós ainda nos lembrarmos daquela reguada, palmada, frase destruidora ou situação violenta que vivemos ou assistimos contra pessoas ou animais, quando tínhamos, por exemplo, seis, sete ou oito anos? A memória tem uma raiz emocional. Quanto maior o impacto emocional do acontecimento, mais facilmente fica gravado na nossa memória a longo prazo.
Organizações como a Organização Mundial de Saúde, a Ordem dos Psicólogos Portugueses ou a UNICEF têm vindo a alertar para aquilo que muitos profissionais da saúde mental testemunham diariamente: a violência é também um problema de saúde pública, que tem impactos profundos no bem-estar psicológico, na construção de relações próximas e na capacidade de construir um projeto de vida.
Dados recentes mostram-nos que quem viveu experiências de violência pode sentir que o mundo deixou de ser um lugar previsível. Aquilo que antes parecia seguro deixou de o ser. A confiança em si, nos outros e em relações positivas pode fragilizar-se. O medo, a hipervigilância, a dificuldade em regular emoções, as memórias que surgem inesperadamente ou a necessidade de evitar determinadas situações são muitas vezes tentativas do organismo proteger aquilo que foi profundamente ferido. Estas são as reações ao trauma vivido, a essa marca invisível aos olhos, que fica dentro de muitos que passam por situações de violência e maus-tratos. Estas reações não são sinais de fraqueza, são respostas humanas a experiências que ultrapassaram o limite da segurança.
Quando a violência é minimizada, questionada ou silenciada, o sofrimento tende a prolongar-se. A ausência de reconhecimento pode transformar a dor em isolamento. A culpa desloca-se injustamente para quem sofreu, enquanto a responsabilidade social permanece difusa.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses tem alertado, em vários documentos e pareceres, que a violência constitui um fator de risco significativo para problemas de saúde mental. As experiências de violência estão associadas a maior probabilidade de ansiedade, depressão, perturbação de stress pós-traumático e dificuldades relacionais. A exposição precoce à violência pode afetar o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e jovens. A Ordem dos Psicólogos sublinha também que intervenções psicológicas baseadas em evidência científica, redes de apoio social e a promoção da literacia entre profissionais e a comunidade em geral são fatores essenciais para a prevenção e recuperação das vítimas.
A violência, nas suas diferentes formas, pode atingir qualquer pessoa, independentemente da idade, classe social, cultura ou género. Os estudos referem que, por exemplo, quase uma em cada três mulheres no mundo, cerca de 840 milhões, já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida (dados da Organização Mundial da Saúde). No caso das crianças, os números são igualmente alarmantes – a UNICEF estima que cerca de 400 milhões de crianças com menos de cinco anos, aproximadamente seis em cada dez, sejam regularmente expostas a agressão psicológica ou castigos físicos em casa, precisamente numa fase crucial do desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional. Entre a população idosa, a violência também é uma realidade preocupante. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de uma em cada seis pessoas com mais de 60 anos sofre algum tipo de abuso todos os anos, muitas vezes vinda das pessoas que lhes sãos mais próximas – familiares e cuidadores. Também os homens são fortemente afetados pela violência, sobretudo nas suas formas mais agravadas, representando cerca de quatro em cada cinco vítimas de homicídio a nível global.
Estes dados mostram que a violência não é um fenómeno isolado nem circunscrito a um único grupo etário, mas uma realidade social transversal e persistente. Reconhecer esta realidade é essencial para promover estratégias eficazes de prevenção, intervenção psicológica e proteção das vítimas.
Cicatrizar o invisível começa precisamente no gesto mais simples e mais poderoso que uma sociedade pode oferecer – escutar sem julgamento, sem exigir provas, acreditando.
Em Psicologia sabemos que a forma como cada pessoa integra uma experiência traumática não depende apenas do acontecimento em si, mas também de fatores de risco e de proteção. A exposição precoce à violência, a ausência de redes de apoio, contextos familiares instáveis ou a repetição da violência podem intensificar o impacto traumático, sobretudo quando a pessoa sente que o seu sofrimento não é reconhecido ou protegido.
Por outro lado, existem fatores que podem favorecer a recuperação. Relações significativas com os pares e familiares, redes de apoio seguras, acesso à intervenção psicológica e instituições sensíveis ao trauma ajudam a reconstruir segurança e sentido. A articulação entre saúde, justiça e apoio social é fundamental para evitar a revitimização e promover processos de recuperação.
Intervenções terapêuticas focadas no trauma mostram que o reconhecimento, a validação e a possibilidade de partilha permitem reorganizar experiências que muitas vezes permanecem fragmentadas. Recuperar não significa apagar o passado, mas devolver à pessoa a segurança, a dignidade e a capacidade de reconstruir a sua história.
Ao mesmo tempo, vivemos numa sociedade em que a violência está cada vez mais presente no quotidiano mediático. A investigação mostra que a exposição continuada a conteúdos violentos pode contribuir para a dessensibilização emocional e para a banalização da agressão. Por isso, a prevenção passa também pela educação emocional e social, ensinando crianças e jovens a reconhecer emoções, resolver conflitos de forma não violenta e desenvolver empatia, respeito e sentido de comunidade.
Leia também: Recordar o que nunca aconteceu: o impacto da desinformação na memória humana | Por Dinis Catronas















