O ano de 2026 marca um eixo geográfico e temático fascinante na Europa. Enquanto Oulu, no extremo norte, inaugura seu ano sob o lema da “Mudança de Clima Cultural”, a cidade eslovaca de Trenčín prepara-se para transformar o seu centro histórico num palco aberto entre 13 e 15 de fevereiro.
Embora separadas por milhares de quilómetros, ambas as cidades partilham uma visão comum: a cultura não é um evento isolado, mas o motor para a resiliência e a transformação urbana.
Oulu 2026, quando a cultura se torna um agente de mudança climática e institucional
A par de outros importantes acontecimentos europeus, as atenções da Europa voltam-se para o norte da Finlândia. A cerimônia de abertura de Oulu 2026 – Capital Europeia da Cultura não é apenas um festival de artes; é a culminação de um planejamento resiliente que sobreviveu aos anos de pandemia para propor uma agenda de transformação profunda sob o conceito de “Mudança de Clima Cultural”.
Além do espetáculo, a cultura como desafio estratégico
O que diferencia Oulu de outras cidades que ostentaram o título de ECoC é a sua visão de longo prazo. Enquanto muitos eventos desse porte focam no efêmero, Oulu estruturou seu programa para enfrentar desafios contemporâneos reais, a resiliência Social, fortalecer a comunidade através da arte em um dos locais mais setentrionais do continente; a consciência Ambiental, utilizando a cultura para catalisar a perceção sobre as mudanças climáticas — um tema urgente para as regiões árticas e a mudança Institucional para reformar a forma como a cidade e os agentes econômicos interagem com o setor criativo.
Um grande número de pessoas reuniu-se no Festival de Abertura Oulu2026 para celebrar o lançamento a 16 de janeiro do ano da Capital Europeia da Cultura. Cerca de 200 eventos no centro da cidade de Oulu atraíram mais de 250.000 visitas. O programa ofereceu uma vasta gama de experiências culturais, desde concertos a hóquei no gelo, acrobacias a afinação de carros, painéis de discussão a concursos em bares, e desde exposições de arte a festas de dança na neve.
O ano da Capital Europeia da Cultura em Oulu foi oficialmente inaugurado pelo Presidente da República da Finlândia, Alexander Stubb. Durante a sua visita, explorou também vários destaques do programa, incluindo o recém-inaugurado Centro Cultural Infantil Kotilo.
“O Festival de Abertura aqueceu verdadeiramente o coração das pessoas de toda a região. Com base no número de visitantes, acredita-se que o festival se tenha tornado o maior evento da história de Oulu. Esta é uma forma maravilhosa de continuar o ano da Capital Europeia da Cultura”, diz Piia Rantala-Korhonen, CEO da Fundação da Cultura Oulu Oulu2026.
O Presidente Alexander Stubb abriu o festival na sexta-feira na Praça do Mercado de Oulu, onde cerca de 9.000 pessoas se reuniram para assistir à cerimónia de abertura. “Nunca foi organizado um festival de inverno desta dimensão em Oulu antes. As pessoas mostraram que celebrar festivais é possível mesmo em janeiro”, diz Sandy Kantola, Produtora Executiva do Oulu2026.
Os eventos foram realizados em cerca de 20 locais espalhados pelo centro da cidade. No Centro Comercial Valkea, o número de visitantes manteve-se elevado durante todo o fim de semana e superou as expectativas.
O diferencial de Oulu: o compromisso com a avaliação
Um ponto destacado por especialistas e júris internacionais é o compromisso de Oulu com a transparência e a métrica. Diferente de projetos que despejam capital e esperam resultados incertos, Oulu trouxe o Cupore (Centro Finlandês de Pesquisa em Política Cultural) para o centro da estratégia desde a fase de candidatura.
Essa parceria permitiu a publicação de estudos de base e relatórios de progresso que garantem continuidade: O projeto não se perde na mudança de gestores, independência com avaliações críticas que corrigem rotas em tempo real e a clareza Metodológica para transformar “cultura” em dados tangíveis de desenvolvimento social e econômico.
Trenčín 2026, uma celebração de pessoas para pessoas
Se Oulu se foca na avaliação rigorosa e no clima, Trenčín aposta na proximidade e na comunidade. O presidente da Camara Richard Rybníček é claro: a vitória de Trenčín é uma oportunidade de mostrar que uma cidade “excepcional e dinâmica” pode criar cultura “com as pessoas e para as pessoas”.
O programa de abertura de Trenčín está estruturado em três atos distintos, despertar a curiosidade focada no futuro — as escolas e instituições educativas, um dia das comunidades locais e dos voluntários, o coração do projeto; depois, a transformação urbana com o auge das festividades da inauguração. das “manhãs literárias” a uma parada cultural que culminará num espetáculo de gala no Castelo de Trenčín e uma performance visual na Praça Mierové; finalmente a reflexão e a família um ritmo mais lento, dedicado à partilha entre gerações, com serviços ecuménicos, teatro para crianças e eventos para seniores.
Projetos emblemáticos a arte onde menos se espera
O que torna Trenčín 2026 particularmente relevante para o debate sobre desenvolvimento regional é a sua capacidade de ocupar espaços não convencionais como Waiting Places: arte em hospitais, esquadras de polícia e centros de emprego, a ideia é humanizar as instituições públicas através da estética, ou The City Reimagined, experiências de urbanismo tático que fecham ruas aos carros para as abrir aos vizinhos, criando “provas vivas” de que a cidade pode ser mais habitável e o Sustainable Fashion Laboratory.
Oulu e Trenčín, duas faces da mesma moeda
A tabela abaixo cruza os pilares estratégicos dos programas de Capital Europeia da Cultura das duas capitais de 2026, evidenciando como ambas complementam a visão de uma Europa culturalmente integrada,
| Ponto de Comparação | Oulu 2026 (Finlândia) | Trenčín 2026 (Eslováquia) |
| Conceito Central | Mudança de Clima Cultural (Ambiental). | Cultura para e com as pessoas (Social). |
| Metodologia | Rigor acadêmico e avaliação (Cupore). | Envolvimento comunitário e voluntariado. |
| Espaço Público | Foco na resiliência ártica. | “Waiting Places” (Arte em instituições). |
| Legado Esperado | Mudança institucional e consciência climática. | Desenvolvimento regional e inclusão social. |
| Destaque de Abertura | Inauguração focada na resiliência pós-COVID. | Festival de Luz (LAF) e parada cultural urbana. |
A dimensão social, o caso “Children’s City”
Um dos pontos altos da programação de Trenčín é a exposição “The Architecture of Community Building” de Kristína Seidlová. Ao analisar o projeto da “Cidade das Crianças” (1974-2005), a capital eslovaca traz para o debate europeu um tema sensível e urgente: a inclusão de pessoas desfavorecidas e os desafios de integração que as cidades modernas enfrentam. É o Soft Power sendo usado para discutir justiça social.
O despertar de novos centros
A simultaneidade de Oulu e Trenčín em 2026 mostra que o eixo cultural da Europa está a deslocar-se para cidades médias com grandes ambições. Enquanto Oulu nos ensina sobre a importância da medição de impacto, Trenčín recorda-nos que a cultura só é sustentável se for apropriada pela comunidade.

Ambas as cidades deixam de ser pontos num mapa para se tornarem laboratórios de como viveremos no futuro: de forma mais sustentável, mais inclusiva e mais conectada.
Edição e adaptação dom IA de João Palmeiro com ECOCNews, Beatriz Garcia e Luigi Paternoster.

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