Um grupo de pessoas entra num restaurante lisboeta à procura de um jantar diferente. À primeira vista, tudo parece comum: ementa, mesas compostas, copos alinhados. Mas há um detalhe que muda tudo: os empregados de mesa têm Alzheimer ou outro tipo de demência.
A iniciativa chama-se “Restaurante dos Enganos” e decorreu no Museu da Cerveja, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Criado com o intuito de sensibilizar para a inclusão de pessoas com demência, este projeto contou com o envolvimento direto da Associação Alzheimer Portugal e da Associação Coração Amarelo.
A ideia surgiu para desmistificar os preconceitos sobre a doença e criar uma experiência real que confrontasse o público com os desafios do dia a dia destas pessoas. Como o próprio nome sugere, o jantar foi preparado para permitir enganos, e esses enganos tornaram-se a chave da reflexão.
Um jantar com falhas planeadas
Segundo a Alzheimer Portugal, o objetivo foi demonstrar que, com apoio adequado, as pessoas com demência podem continuar ativas e integradas na sociedade. Os ‘enganos’ não eram falhas a esconder, mas parte da mensagem que se queria passar.
O projeto envolveu formação específica para os participantes, que, apesar do diagnóstico, desempenharam funções de acolhimento, serviço e interação com os clientes. A resposta dos convidados foi de empatia, surpresa e respeito.
Preconceitos à prova de mesa posta
Escreve o jornal Público que o evento foi um verdadeiro “desafio às perceções”, demonstrando que a doença não apaga a dignidade nem o valor humano. Vários convidados relataram que a experiência mudou a forma como encaram o envelhecimento e a perda de memória.
A Associação Coração Amarelo, que colabora em programas de voluntariado com idosos em situação de solidão, destacou que esta experiência também visou combater o isolamento e estimular o contacto social de pessoas com doenças neurodegenerativas.
Cuidar da memória começa por escutar
Conforme a mesma fonte, o evento foi cuidadosamente preparado para garantir segurança e bem-estar a todos os envolvidos. Profissionais de saúde acompanharam discretamente todo o serviço.
A iniciativa enquadrou-se nas ações do Mês Mundial da Doença de Alzheimer, celebrado em setembro, e foi considerada um exemplo inovador de ativismo social e empatia comunitária.
Um nome provocador para quebrar silêncios
O nome provocador do restaurante foi escolhido de forma consciente. Pretendia gerar curiosidade e quebrar tabus. E conseguiu. A repercussão mediática foi imediata e gerou debate público sobre inclusão e saúde mental.
Segundo a Direção-Geral da Saúde, estima-se que existam mais de 200 mil pessoas com demência em Portugal, sendo o Alzheimer a forma mais comum. A maioria permanece em casa, dependente de cuidadores informais.
Com pratos e lições servidas à mesa
A mensagem principal da noite foi clara: não se trata apenas de doenças, mas de pessoas. Pessoas com histórias, vontades e capacidades que persistem, mesmo quando a memória falha.
Os clientes foram desafiados a lidar com atrasos, confusões e esquecimentos, mas com um propósito claro: colocar-se no lugar do outro, nem que fosse por duas horas.
Refere a Alzheimer Portugal que o impacto foi tão positivo que estão previstas edições futuras, noutros pontos do país. A vontade é replicar o modelo e envolver mais parceiros da restauração e da saúde.
Mais do que jantar: um reencontro com a dignidade
Esta ação não procurou apenas sensibilizar o público. Serviu também de estímulo para os próprios participantes, que descreveram a experiência como enriquecedora, divertida e gratificante.
Alguns familiares dos “empregados por um dia” estiveram presentes no evento e afirmaram que se sentiram emocionados e orgulhosos com a iniciativa. Para muitos, foi uma oportunidade rara de ver os seus entes queridos valorizados em público.
Explica a organização que todas as receitas do evento reverteram para programas de apoio direto a pessoas com demência e suas famílias, como forma de prolongar o impacto da iniciativa.
O “Restaurante dos Enganos” não quis ser uma performance nem um gesto simbólico isolado. Foi um convite direto à reflexão, feito à mesa, com talheres, pratos e humanidade. No fim da noite, quem lá esteve não saiu indiferente. Porque, como muitos disseram, não foram servidos apenas pratos, foram servidas lições.
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