A passagem da depressão Kristin por Portugal pode ter estabelecido um novo máximo histórico de vento no país, com uma rajada que terá atingido 208,8 km/h na madrugada de quarta-feira, numa estação meteorológica localizada no Parque Eólico das Degracias, no concelho de Soure. O valor ainda está em fase de validação, mas não é excluída a possibilidade de se tratar da rajada mais forte alguma vez medida em território nacional.
De acordo com o jornal Sol, que cita fontes oficiais, o registo foi efetuado pelas 5h40 da manhã numa estação integrada na rede do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
Apesar de fazer parte do sistema nacional de observação, os dados recolhidos estão ainda a ser analisados pelos técnicos do IPMA, um procedimento habitual sempre que surgem valores extremos.
Dados ainda em validação, mas cenário é considerado plausível
Segundo explicações prestadas pelo IPMA e citadas pelo mesmo jornal, a validação é necessária porque existem diferenças técnicas entre equipamentos, métodos de amostragem e condições locais que podem influenciar os resultados. Ainda assim, o instituto admite que a rajada observada em Soure poderá figurar entre as mais intensas já registadas em Portugal.
A localização da estação, a cerca de 524 metros de altitude, é apontada como um fator determinante para a intensidade do vento.
De acordo com a publicação, as estações situadas em cotas mais elevadas tendem a registar valores mais altos, ainda que o impacto direto nas zonas habitadas possa ser inferior ao de rajadas menos intensas, mas ocorridas a baixa altitude.
Registos oficiais confirmados abaixo dos 200 km/h
Até ao momento, a rajada mais forte oficialmente validada pelo IPMA continua a ser a registada no Cabo Carvoeiro, em Peniche, com 149 km/h às 4h00 da madrugada de quarta-feira. No entanto, outras medições relevantes reforçam a excecionalidade do episódio.
Segundo dados divulgados e recolhidos pelo Sol, a Base Aérea de Monte Real assinalou rajadas de 176 km/h por volta das 5h00 e de 178 km/h pouco depois. Foram ainda registados valores elevados em vários pontos do país, como Ansião, com 146 km/h, o aeródromo de Leiria, com 142 km/h, Castelo Branco, com 137 km/h, a Fóia, na Serra de Monchique, com 135 km/h, Vale Donas, em Tomar, com 133 km/h, o Cabo da Roca, com 131 km/h, Santa Cruz, em Torres Vedras, com 128,9 km/h, e Cavalos de Caldeirão, em Loulé, com 120,2 km/h.
O que esteve na origem da violência do vento
Em comunicado citado pela mesma fonte, o IPMA explicou que a depressão Kristin resultou do rápido desenvolvimento de um núcleo depressionário associado à tempestade Joseph.
Entre a noite de terça-feira e a madrugada de quarta-feira, este sistema sofreu um processo de ciclogénese explosiva a oeste da costa portuguesa, caracterizado por uma descida muito acentuada da pressão atmosférica em poucas horas.
Este processo foi intensificado pela entrada de ar estratosférico extremamente seco na circulação da tempestade. Segundo o instituto, este ar contribuiu para o arrefecimento e aumento da densidade das correntes descendentes, acelerando-as de forma significativa até atingirem a superfície.
Fenómeno raro associado ao chamado “sting jet”
Em determinadas circunstâncias, como as verificadas neste episódio, essas correntes descendentes concentram-se numa faixa relativamente estreita, produzindo ventos extremamente intensos durante períodos curtos, mas com elevado potencial destrutivo. Este padrão é conhecido na comunidade científica como corrente de jato do tipo “sting”.
De acordo com o IPMA, citado pelo Sol, este fenómeno é identificado através de imagens de satélite e radar e esteve na base dos danos mais severos provocados pela tempestade Kristin, sobretudo no litoral Centro.
Impacto humano e resposta do Estado
A depressão Kristin deixou um rasto significativo de destruição em Portugal, tendo provocado pelo menos seis vítimas mortais, além de feridos, desalojados e extensos danos materiais. Perante a dimensão dos estragos, o Governo declarou estado de calamidade nas regiões mais afetadas.
Esta decisão permite acelerar processos administrativos, mobilizar meios extraordinários, requisitar bens e serviços, suspender regras burocráticas e, sobretudo, desbloquear apoios financeiros urgentes para populações e autarquias atingidas.
Enquanto decorre a validação final dos dados, a possibilidade de Portugal ter registado uma rajada superior a 200 km/h permanece em aberto, num episódio meteorológico que já entrou para a história recente do país pela sua intensidade e impacto.
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