Depois de um inverno marcado por precipitação persistente, neve em quantidade invulgar e solos já saturados, Portugal Continental enfrenta agora um cenário meteorológico que está a gerar crescente preocupação entre meteorologistas e autoridades. As previsões do portal meteorológico Luso Meteo apontam para um período prolongado de chuva intensa no final de janeiro e início de fevereiro, com risco elevado de cheias em várias regiões do país, podendo tratar-se das mais significativas das últimas décadas.
O alerta surge numa fase em que o inverno climatológico ainda vai sensivelmente a meio, depois de 2025 ter sido já um ano particularmente chuvoso. A acumulação de precipitação ao longo dos últimos meses reduziu a capacidade de absorção dos solos e aumentou de forma significativa os níveis de armazenamento nas albufeiras, criando um contexto propício a situações de cheia sempre que ocorram novos episódios de chuva intensa e persistente.
Este cenário tem sido comparado ao que se viveu no início de 2001, ano em que a precipitação praticamente contínua durante vários meses, sobretudo no Norte do país, levou a cheias generalizadas e culminou num dos episódios mais trágicos da história recente, com o colapso da ponte de Entre-os-Rios. Passados cerca de 25 anos, os modelos meteorológicos voltam a desenhar um padrão que merece atenção redobrada.
Precipitação acumulada acima do normal
A sucessão de depressões atlânticas previstas para o final de janeiro e início de fevereiro deverá manter um fluxo predominante de Oeste, ocasionalmente de Sudoeste, transportando massas de ar com elevado conteúdo de água precipitável. De acordo com simulações baseadas no modelo europeu do ECMWF, os acumulados de precipitação poderão atingir valores muito elevados em várias regiões.
Nas zonas montanhosas do Norte e Centro, os cenários mais prováveis apontam para totais entre 600 e 800 litros por metro quadrado até cerca de 7 de fevereiro. Em áreas de menor altitude, os valores previstos situam-se entre 200 e 450 litros por metro quadrado no mesmo período, refere a mesma fonte. No Sul do país, apesar de alguma variabilidade entre modelos, o consenso aponta para acumulados mais moderados, entre 100 e 200 litros por metro quadrado.
Apesar de o modelo europeu ser, por vezes, associado a uma tendência para exagerar a precipitação a médio prazo, neste caso existe concordância com outros sistemas de previsão, como o modelo americano, bem como com os conjuntos de previsões probabilísticas. Essa convergência reforça a probabilidade de ocorrência de um episódio chuvoso significativo.
Norte e Centro sob maior risco
As regiões Norte e Centro surgem como as mais expostas ao risco de cheias, não apenas pela quantidade de precipitação prevista, mas também pela distribuição ao longo de vários dias, intercalada com períodos de chuva intensa em poucas horas. De acordo com a mesma fonte, em alguns locais, os modelos admitem a possibilidade de caírem mais de 100 litros por metro quadrado num intervalo de apenas 24 horas, o que aumenta o risco de inundações rápidas.
A este fator junta-se o degelo progressivo da neve acumulada nas serras do Norte e do Maciço Central, onde em alguns pontos a espessura ultrapassa um metro. Com a subida gradual das temperaturas, essa água adicional acabará por escoar para as linhas de água, agravando o caudal dos rios numa fase em que o sistema hidrológico já se encontra sob pressão.
Albufeiras próximas da capacidade máxima
Segundo dados divulgados pela Agência Portuguesa do Ambiente, o nível de armazenamento das albufeiras encontra-se, na maioria dos casos, acima da média para esta altura do ano, havendo várias barragens próximas das cotas máximas. Para tentar mitigar riscos, estão a ser realizadas descargas preventivas um pouco por todo o país, numa tentativa de criar margem para a precipitação que se aproxima.
As bacias hidrográficas do Douro, Mondego, Vouga e Tejo apresentam níveis particularmente elevados, concentrando grande parte da atenção das autoridades. Nestas regiões, a combinação de chuva intensa, solos saturados e descargas controladas pode traduzir-se em cheias significativas, sobretudo em zonas ribeirinhas, planícies aluviais e áreas urbanas mais vulneráveis.
Um cenário a acompanhar dia a dia
Segundo o Luso Meteo, embora as previsões até ao final de janeiro sejam consideradas robustas, o cenário para a primeira quinzena de fevereiro ainda apresenta alguma incerteza. A tendência mantém-se chuvosa, com ausência de sistemas de alta pressão que normalmente estabilizam o tempo, mas a confirmação de valores extremos só será possível com a aproximação das datas.
Além do risco de cheias, estão também em cima da mesa outros impactos associados à precipitação persistente, como derrocadas, deslizamentos de terras e cortes de vias de comunicação. As autoridades recomendam especial atenção aos avisos oficiais e à evolução da situação meteorológica, sobretudo nas regiões mais afetadas.
Em Portugal, fenómenos extremos tendem a alternar entre períodos de seca prolongada e episódios de precipitação intensa concentrada no tempo. O atual contexto ilustra bem essa variabilidade, reforçando a importância da monitorização contínua e da prevenção. Nas próximas semanas, a evolução do estado do tempo será decisiva para determinar se o país enfrenta apenas um inverno muito chuvoso ou um episódio histórico de cheias com impacto alargado.
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