Inaugurada há mais de oito décadas, foi berço de tradição, palco de encontros e símbolo de uma visão inovadora para o turismo nacional. Durante anos atraiu visitantes de todo o país e do estrangeiro. Recentemente, a primeira pousada da rede Pousadas de Portugal encerrou portas de forma definitiva, pondo fim a um ciclo que começou ainda durante o Estado Novo.
Foi na cidade de Elvas, no distrito de Portalegre, que a Pousada de Santa Luzia, inaugurada em 1942, marcou o arranque da rede de Pousadas de Portugal. Fundada por iniciativa do poeta e político António Ferro, que via neste modelo uma forma de promover o turismo com identidade, elegância e proximidade com o território, a unidade tornou-se uma referência nacional.
O encerramento após 83 anos
De acordo com o Expresso, o encerramento foi oficializado no dia 5 de julho. O espaço operava nos últimos anos com o nome “SL Hotel de Santa Luzia”, mantendo a herança e o nome que lhe deram notoriedade.
Segundo a mesma fonte, o motivo da decisão prende-se com a falta de trabalhadores e problemas de saúde do proprietário, João Simões. O empresário explicou que a escassez de mão de obra em Elvas se tornou incomportável, referindo que era habitual ter de assumir sozinho funções, como receção, pequenos-almoços e serviços gerais. “Não havia outra hipótese senão fechar as portas”, confessou.
A origem do famoso bacalhau dourado
Além do alojamento, a pousada ficou também associada à criação de um dos pratos mais emblemáticos da gastronomia portuguesa. Conforme escreve a publicação, o bacalhau dourado terá nascido em 1947 neste mesmo espaço, inspirado no tradicional bacalhau à Brás. A receita depressa se espalhou e hoje é confecionada de norte a sul do país.
O agora ex-proprietário assegura que o prato não vai desaparecer: “A receita é pública e continuará a ser feita em todo o país”, sublinha João Simões.
Um projeto com assinatura histórica
O conceito de pousada regional nasceu ainda nos anos 30. Em 1933 foi lançado um concurso no Notícias Ilustrado para um “hotel-modelo”. Três anos depois, Francisco de Lima apresentou ao I Congresso Nacional de Turismo a ideia de uma rede de alojamento com identidade local.
O projeto para a Pousada de Santa Luzia foi encomendado ao arquiteto Miguel Simões Jacobetty Rosa em 1939, enquanto o mobiliário ficou a cargo de Vera Leroi e Anne-Marie Jauss, executado pela Casa Barbosa & Costa. A inauguração oficial ocorreu a 19 de abril de 1942.
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Crescimento e evolução
Em agosto de 1963, o edifício original foi ampliado. Essa intervenção acrescentou novos espaços, como sala de estar, bar de apoio e ampliação da sala de jantar. O número de quartos também aumentou, passando de seis para onze.
Nos anos mais recentes, o SL Hotel Santa Luzia passou a disponibilizar 25 quartos, com vista para o jardim, piscina ou para a cidade, mantendo-se como uma referência na hotelaria regional.
Um desafio para a hotelaria local
A experiência de João Simões não é caso isolado. Segundo o Expresso, a dificuldade em encontrar trabalhadores disponíveis e qualificados tem afetado vários negócios na região. No caso da Pousada de Santa Luzia, o proprietário afirma ter chegado a adiar uma cirurgia por falta de pessoal, salientando o impacto direto na saúde e na operação do hotel.
Apesar do encerramento, o edifício mantém valor patrimonial. O contrato de arrendamento terminou e João Simões optou por entregar o imóvel à ENATUR, empresa pública que gere a rede de Pousadas de Portugal. O futuro do espaço permanece em aberto.
Um modelo que mudou o turismo
A criação da rede de Pousadas de Portugal teve um impacto profundo no turismo nacional. Procurando aliar tradição, conforto e autenticidade, o conceito ajudou a valorizar zonas do interior e a dinamizar economias locais. A Pousada de Santa Luzia foi a primeira, mas o modelo estendeu-se ao longo das décadas por todo o território.
Ao longo dos anos, a unidade foi distinguida por manter viva a tradição da hospitalidade portuguesa. Viu passar gerações de viajantes e manteve-se como ponto de paragem obrigatória em Elvas, cidade que em 2012 foi classificada como Património Mundial pela UNESCO.
Futuro incerto, memórias certas
A reabertura ainda não está prevista e permanece por esclarecer o futuro do imóvel. A ENATUR não adiantou detalhes quanto a novos projetos ou possíveis concessões. Ainda assim, o encerramento gerou reações de pesar entre antigos hóspedes e habitantes locais, para quem a pousada era também parte do quotidiano da cidade.
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