O bacalhau à Brás pode estar em risco de deixar de figurar nas ementas portuguesas. O prato que nasceu nos bairros lisboetas e se tornou um ícone nacional enfrenta agora um obstáculo inesperado: a falta de matéria-prima. A Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME) alertou o governo para o impacto do embargo europeu às importações de bacalhau da Rússia, que está a comprometer a atividade de transformação e, em última instância, a presença do tradicional prato nas mesas nacionais.
De acordo com a CPPME, Portugal é o maior consumidor mundial de bacalhau salgado, com mais de 170.000 toneladas por ano, mas a escassez provocada pelas sanções à Rússia ameaça a estabilidade do setor. As empresas pedem por isso ao governo que solicite a Bruxelas um regime de exceção, que permita a retoma das importações daquele país.
Empresas alertam para o risco de colapso do setor
O embargo europeu impede que o bacalhau russo, até aqui um dos principais produtos utilizados pela indústria nacional, entre no mercado português. Segundo a CPPME, a proibição está a gerar um aumento de preços e a favorecer concorrentes estrangeiros, nomeadamente noruegueses, que revendem o peixe processado a valores mais altos.
A organização explica que o impacto é já visível: os custos de transformação subiram, as margens reduziram-se e várias pequenas empresas estão em risco de encerrar. A confederação considera “fundamental que o Governo português invoque uma exceção junto das autoridades europeias, para garantir a sobrevivência de um produto que faz parte da nossa identidade gastronómica”.
Governo admite avaliar medidas
A delegação da CPPME reuniu-se recentemente com o secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, para discutir a situação. Segundo a confederação, o governante comprometeu-se a levar o tema a Conselho de Ministros e a analisar o pedido de exceção.
O problema não se limita à questão económica. O bacalhau é uma das bases da gastronomia portuguesa, presente em dezenas de receitas, das mais simples às mais elaboradas.
“Quando o preço da matéria-prima dispara, toda a cadeia sofre, dos transformadores aos restaurantes”, refere a CPPME, sublinhando que pratos, como o bacalhau à Brás, à Gomes de Sá ou com natas podem tornar-se um luxo para muitos consumidores.
Preços em alta e procura em queda
Desde janeiro de 2024, a União Europeia impôs tarifas de 12% sobre o bacalhau congelado proveniente da Rússia, agravando os custos para as empresas portuguesas. Além disso, em maio de 2025, foi totalmente proibida a importação e comercialização de produtos de dois grandes armadores russos. Segundo a confederação, estas medidas “penalizam desproporcionadamente o setor nacional” e criam desigualdade entre países.
Com menor oferta e maior procura, os preços subiram de forma acentuada. De acordo com a rádio TSF, há quem preveja que o bacalhau seco possa atingir valores recorde de 40 euros por quilo durante o Natal, altura que representa cerca de 30% das vendas anuais.
Um símbolo nacional em risco
A ligação dos portugueses ao bacalhau remonta à época dos Descobrimentos, quando as embarcações nacionais exploravam as águas frias da Terra Nova. Hoje, Portugal depende quase totalmente da importação, sobretudo da Noruega e do Canadá. Apesar de Bruxelas ter duplicado a quota nacional de pesca em 2025, fixando-a em 1171 toneladas, o impacto do embargo continua a fazer-se sentir.
Para já, o bacalhau à Brás continua nas mesas e nas cartas de restaurante, mas o setor teme que, sem medidas urgentes, o prato possa tornar-se mais caro e, a prazo, menos presente no quotidiano dos portugueses.
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