Quando se fala de abstenção eleitoral, e, em regra, apenas no dia das próprias eleições, costuma surgir uma explicação rápida e simples: “as pessoas não querem saber” ou “os jovens não se interessam”.
O problema é que esta leitura é fraca para compreender o fenómeno e, ainda pior, para desenhar soluções, pois, desde logo, verificamos um julgamento moral sobre quem não vota.
A abstenção é, antes de tudo, um fenómeno multifacetado. É vista como um indicador global e homogéneo; contudo, trata-se de uma problemática altamente heterogênea.
Os números destas eleições presidenciais de 18 de janeiro 26 gritam!
Com os dados praticamente fechados e num universo de 11 017 133 eleitores inscritos, houve uma abstenção global de cerca de 48%. Apesar de, em termos nominais, a abstenção ter diminuído em relação às últimas presidenciais de 2021, devemos olhar com muita atenção para os números.
E os dados no estrangeiro ajudam a perceber isto com maior nitidez.
A taxa de abstenção na diáspora foi de cerca de 95%. Dos 1 754 480 eleitores inscritos, apenas 70 396 votaram (dados a 19 de janeiro – CNE).
Aqui, a abstenção funciona como um “termómetro” de acessibilidade: logística, distância, custos, tempo, burocracia, informação insuficiente e fraca ligação às instituições podem transformar a intenção de votar numa desistência.
Existem relatos de eleitores que teriam de viajar 4 horas de carro para votar, ou até das Canárias para o continente, o que seria incomportável.
Estes dados vão em linha de conta com os nossos trabalhos já publicados sobre a abstenção eleitoral e que podem ser acompanhados em maior detalhe em https://abstencao-eleitoral.webnode.pt/
Ao ouvir votantes e não votantes em grupos focais, identificamos diferentes perfis de abstencionistas, com razões distintas. E isto muda tudo.
Entre os vários perfis de abstencionistas identificados, destacamos os cidadãos descrentes (apresentam desconfiança e desilusão com a política), os jovens desinteressados (têm pouco interesse e baixa literacia e conhecimento político), os abstencionistas de protesto (são pessoas informadas que não votam para marcar posição e enviar uma mensagem de protesto) e, por fim, os abstencionistas pragmáticos.
É este perfil de abstencionista que temos, predominantemente, para estes dados: ponderam as barreiras ao voto, como as deslocações, a burocracia, os custos e o tempo necessário para ir votar, por exemplo. Não se mobilizam devido a obstáculos práticos.
Ler a abstenção do estrangeiro à luz destes perfis ajuda a evitar erros.
De salientar que o ônus de acesso ao voto nestas eleições recaiu sobre os eleitores. Não existiu voto postal, o que exigiu que os eleitores se deslocassem aos consulados.
Assim, quando quase ninguém consegue (ou consegue com facilidade) votar, o que se mede não é apenas “vontade ou intenção”, mas também condições.
Um aumento da participação não se consegue apenas com apelos morais (“votar para cumprir um dever cívico”), pois parte do problema é estrutural. Para uns, é preciso reduzir barreiras (simplificar procedimentos, aproximar locais e horários de voto, melhorar a informação). Para outros, é preciso reforçar o significado e a confiança (melhor representação, mais transparência, maior responsabilização política). Para os mais jovens, o estudo sugere que medidas contínuas de educação cívica e de literacia política podem ser mais eficazes do que campanhas pontuais em vésperas de eleição.
A lição principal é simples: a abstenção não é apenas ausência; é mensagem e diagnóstico. Se a democracia quer ser mais inclusiva, precisa de tratar a participação não como um teste de cidadania, mas como um resultado que depende de condições reais, de confiança institucional e de sensação de representação.
Sobre o autor: Nuno Miguel Forra Almeida é licenciado em Psicologia, mestre em Psicologia Social e das Organizações e doutorando em Psicologia pela Universidade do Algarve. É docente assistente convidado na mesma universidade e psicólogo especialista em Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações, reconhecido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente, o seu tema de pesquisa é a abstenção eleitoral nos jovens. www.cienciavitae.pt
Leia também: A tendência para a auto-profecia das sondagens | Por Saúl Neves de Jesus

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