Os supermercados portugueses podem vir a mudar o preço dos produtos várias vezes ao longo do dia, se a tendência dos chamados preços dinâmicos se alargar a mais países. Esta prática já está a ser testada em algumas cadeias de retalho na Europa. Embora os preços de supermercado tenham sido, ao longo dos tempos, alterados manualmente, isso pode estar prestes a mudar.
Um conceito familiar nos voos e hotéis
O conceito de preços dinâmicos é conhecido por quem já reservou um voo ou uma estadia num hotel. Quando a procura é elevada, os preços aumentam. Quando há menos interesse, os preços podem descer. A variação acontece em tempo real, com base em algoritmos que analisam grandes volumes de dados.
O modelo é aplicado por empresas que procuram maximizar lucros, adaptando os preços ao nível de procura e à concorrência. O objetivo é obter o maior retorno possível por cada unidade vendida, ajustando os valores ao longo do tempo.
No entanto, esta lógica já está a ser aplicada fora dos setores de turismo e lazer. Recentemente, os preços dos bilhetes para um concerto da banda Oasis duplicaram, devido à utilização de preços dinâmicos. Casos como este estão a levantar questões sobre o impacto da prática noutros setores.
Primeiros passos no retalho alimentar
Alguns supermercados internacionais começaram a testar este modelo. Um exemplo é a cadeia norueguesa Rema 1000, que tem quase 700 lojas no país e utiliza preços dinâmicos com base em diversos dados, incluindo os valores praticados pela concorrência, explica o jornal irlandês The Journal.
A mesma fonte refere que a empresa recorre a etiquetas eletrónicas para atualizar os preços automaticamente. Esta tecnologia permite alterações frequentes ao longo do dia, sem intervenção manual, e com base em decisões automatizadas do sistema.
Para evitar alterações durante a presença do cliente na loja, os aumentos de preços nestes supermercados acontecem apenas durante a noite. Durante o horário de funcionamento, os preços só podem baixar. Esta estratégia pretende reduzir a perceção de injustiça por parte do consumidor.
Supermercados atentos às margens
O setor da grande distribuição trabalha com margens reduzidas. No caso do Aldi Irlanda, por exemplo, os lucros antes de impostos foram de 3,6 por cento em 2020, um dos seus melhores anos. Em 2023, apesar do aumento das vendas, o lucro desceu para 17,4 milhões de euros, afetado pela inflação.
O Aldi confirmou que não pretende aplicar preços dinâmicos. Contudo, os seus resultados demonstram os desafios de manter margens positivas. Isto pode justificar o interesse de outras cadeias em explorar esta possibilidade para melhorar os resultados financeiros.
A introdução de preços dinâmicos no supermercado poderá ser encarada como uma forma de rentabilizar produtos com menor rotação ou perto da data de validade. Esta abordagem já é usada em situações como promoções de última hora.
Tecnologia como facilitador
Nos Estados Unidos, a Walmart anunciou a introdução de etiquetas eletrónicas em 2.600 lojas. A medida é apresentada como uma forma de melhorar a eficiência e libertar os trabalhadores de tarefas repetitivas, como a substituição manual de etiquetas.
Analistas apontam que esta mudança poderá abrir caminho à introdução de preços dinâmicos em supermercados norte-americanos. A alteração dos preços em função do clima, da procura ou da proximidade da validade dos produtos passa a ser tecnicamente viável.
Especialistas alertam, no entanto, para os riscos de afastar clientes fiéis, caso percebam que os preços variam excessivamente. A perceção de transparência será um fator essencial para a aceitação do modelo.
Adaptação ao contexto local
Na Noruega, a experiência da Rema 1000 tem sido recebida sem grandes reações negativas. A implementação cuidadosa e a comunicação transparente parecem ter contribuído para a aceitação do modelo.
A introdução de preços dinâmicos não precisa, necessariamente, de seguir o modelo mais agressivo, com aumentos súbitos. Estratégias mais comedidas, como atualizações noturnas, podem ser mais bem aceites pelos consumidores.
Em mercados com elevada concorrência, como o retalho alimentar, os consumidores podem facilmente mudar de loja se detetarem aumentos injustificados. Este fator funciona como um travão natural à aplicação indiscriminada da prática.
A introdução de etiquetas eletrónicas em larga escala poderá, no entanto, tornar a adoção de preços dinâmicos uma opção realista para as cadeias portuguesas. A decisão dependerá de fatores como o custo da tecnologia e a resposta dos consumidores.
O impacto nos preços do supermercado será uma das principais preocupações dos clientes. Mesmo que os preços não subam de forma significativa, a perceção de variabilidade poderá afetar os hábitos de compra.
Para já, não existem indícios de uma aplicação iminente desta prática em Portugal. No entanto, o setor acompanha de perto os desenvolvimentos internacionais e poderá considerar a adoção futura, consoante os resultados obtidos noutros países.
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