A história dos museus está ligada ao movimento das ideias, às conjunturas políticas e sociais, a aspirações de reconhecimento de elites do poder político, económico e cultural. Em Portugal as fases mais dinâmicas de criação de museus coincidiram com as revoluções liberal, republicana, Estado Novo e democrática de 25 de Abril de 1974.
Os museus públicos foram sobretudo uma criação do século XIX, inspirados nos ideais da Revolução Francesa, da revolução industrial e científico-técnica, perspectivados nos séculos anteriores pelo coleccionismo, gabinetes de “curiosidades” contendo objectos de arte, arqueologia, raridades de propriedade privada real, da aristocracia e da Igreja.
As viagens de nobres, clero, intelectuais e comerciantes a cidades europeias suscitou a criação de galerias de arte em Portugal. A Itália do Renascimento atraiu intelectuais e artistas portugueses, casos de Damião de Góis, Francisco de Holanda, Álvaro Pires de Évora e tantos outros, por lá viveram e trabalharam. Em Évora o dominicano André de Resende (1500?-1573), estudou a cultura greco-romana, recolheu lápides e inscrições romanas, árabes e judaicas, o padre Manuel Severim de Faria (1582?-1655) na mesma cidade reuniu estatuária, cerâmica e numismática…

Sociólogo
Novos desafios se colocam aos museus, adaptações, novas funções, revolução digital, modelos de gestão, espólios e colecções, mobilidades, públicos, investigação, educação
A “Galleria degli Uffizzi” de Florença foi concebida no séc. XVI por Vasari, no período posterior nasceram alguns dos mais visitados museus do mundo, Museu Britânico (1759), Hermitage (1764) de São Petersburgo, Louvre (1793), Prado (1819), …
Qual foi o primeiro museu português?
Alguns autores afirmam que foi o Museu de Beja, criado por Frei Manuel do Cenáculo em 1791, mas provavelmente terá sido o Museu Arqueológico da Academia Real de História de Portugal, instituído por D. João V, desaparecido no terramoto de 1755. Com a amedrontada corte de D. José a viver na Ajuda, o Marquês de Pombal decidiu criar um museu público de concepção iluminista, o Real Museu da Ajuda, futuro Museu de História Natural.
O despertar das ciências naturais e do positivismo impulsionou o Museu de História Natural da Universidade de Coimbra, criado pela Reforma Pombalina de 1772.
No século XIX o liberalismo procurou a laicização do Estado e a secularização, as antigas colecções integraram os novos museus. O Museu Portuense abriu em 1840 inspirado pela Revolução Liberal, afirmando o romantismo e o nacionalismo.
Estácio da Veiga, pioneiro da arqueologia portuguesa, tentou criar um museu no Algarve, mas o espólio das escavações e documental ficou até hoje nas reservas do MNA em Lisboa.
Ligados à afirmação da soberania nacional abriu em 1851 o Museu de Artilharia hoje Museu Militar de Lisboa, o Museu de Marinha foi inaugurado em 1863 no Mosteiro dos Jerónimos.
Fundado por José Leite de Vasconcelos surgiu em 1893 o “Museu Etnológico Português”, assim designado entre 1897 e 1929, depois Museu Nacional de Arqueologia Dr. Leite de Vasconcelos de 1929 a 1965, finalmente Museu Nacional de Arqueologia. Procurou ser o “museu do homem português” tal como o fundador o concebeu, para conhecimento das origens remotas e características do povo português.
Em 1932 os museus foram hierarquizados por lei, definidos como nacionais os museus de Arte Antiga, Arte Contemporânea e dos Coches, regionais sete museus Machado de Castro, Grão Vasco, Aveiro, Évora, Bragança e Lamego, os restantes 33 museus eram distritais, municipais, das comissões de turismo, Misericórdias…
A Exposição Colonial de 1934 e a Exposição do Mundo Português de 1940 marcaram a ideologia nacionalista do Estado Novo, o local escolhido foi Belém simbolizando a relação com os descobrimentos do século XVI. Dos Centenários, 1140 e 1640, resultaram o Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha (1933), o Museu de Arte Popular em Lisboa (1948) e o Museu Nacional de Etnografia do Douro Litoral no Porto (1945).
O Museu Nacional Soares dos Reis abriu em 1940 recebendo o acervo do Museu Portuense e da Câmara Municipal do Porto. Em 1965 surge o Museu Nacional do Azulejo no Convento da Madre Deus em Lisboa, um dos melhores museus nacionais e o mais visitado em 2023.
Com a criação em 1956 da Fundação Calouste Gulbenkian surgiu em 1969 o Museu Gulbenkian, com recursos da doação do fundador, um arménio ligado a exploração e negócios de petróleo, o museu, a sede e jardins são hoje atracções de Lisboa.
Num período de debate, de decisões na ONU sobre descolonizações e independências o Governo de Salazar que recusou descolonizar, procurou que as ciências sociais justificassem as teses políticas ultramarinas, surgiram estudos coloniais, o ISCSPU (1962), o Museu de Etnologia do Ultramar com espólio da presença noutros continentes e culturas. O Museu de Etnologia no Restelo só abriu após o 25 de Abril de 1974.
O período pós 25 de Abril com democratização do acesso à educação e à cultura, dinâmicas do Poder Local, abriram novos museus nacionais, do Traje (1976), do Teatro (1982), do Desporto (1985), da Ciência e Técnica (1977), ligados á história da resistência à ditadura foram instalados em prisões o Museu do Aljube (2015) Museu da do Forte de Peniche (2017), no âmbito da artes contemporâneas nasceram o CCB – Centro de Exposições (1992) Museu de Serralves (1999), o MAAT (2016)…
Registou-se crescimento exponencial do número de museus em Portugal, eram 426 em 2023, com enorme diversidade temática, grande parte de iniciativa municipal. A Lei nº 47/2004 da AR aprovou a Lei Quadro dos Museus Portugueses, apesar da regulação e descentralização, só a adiada regionalização poderá corrigir assimetrias de recursos.
Novos desafios se colocam aos museus, adaptações, novas funções, revolução digital, modelos de gestão, espólios e colecções, mobilidades, públicos, investigação, educação.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: Culturas populares, touros e a economia pet | Por Jorge Queiroz
















