Longe vão os tempos do “Palavras para quê? É um artista português e só usa Pasta Medicinal Couto”. Foi um dos anúncios televisivos com maior sucesso de sempre. Um negro de quem se dizia ser moçambicano, rodopiava com uma cadeira presa nos dentes, evidência absoluta do poder do produto da embalagem amarela, logótipo a preto e branco e bisnaga de alumínio. Tão rija como a dentadura do artista, a pasta dentífrica lusa do tempo do Estado Novo resistiu até aos dias de hoje, mau grado a concorrência multinacional dos “colgueites” e “pépesódentes”. Tampouco será necessário recuar dois mil anos, à cidade de Ur na Mesopotâmia, de onde constam os primeiros anúncios em argila a promover produtos e ofertas comerciais. Ou, se quisermos, estabeleça-se o ano de 1472, na Inglaterra, como o arranque formal de anúncios em jornais e panfletos impressos na era pós-Gutenberg. Desde então, publicidade e consumo nunca mais se separaram, união duradoura, lua-de-mel cada vez mais intensa, até ao delírio da sociedade contemporânea que vivemos hoje.
Chegámos à época de todos os excessos, marcada por um hiperconsumismo viciante e doentio, que impulsiona o consumo absurdo de bens e serviços, muito para lá das necessidades reais de grande parte das pessoas no chamado mundo desenvolvido [o resto maioritário da Humanidade debate-se com escassez de tudo, excepto pobreza e miséria, que não cessam de aumentar]. O excesso de publicidade, modela os comportamentos de consumo no sentido de uma sociedade cada vez mais materialista e superficial. Promove-se uma cultura aquisicionista sem limites, como factor de estatuto social, vaidade e realização pessoal. Multiplicam-se campanhas, estratégias de marketing, períodos de saldos e descontos, sextas-feiras pretas, e anúncios, muitos anúncios em todos os espaços, televisão, internet, redes sociais, transportes públicos e privados, espaços livres, fachadas de edifícios, e outdoors em praças, avenidas, rotundas e à beira das estradas.

Nada mais importa que captar a atenção dos consumidores, explorando sentimentos, desejos, e medos sortidos. O Natal é cada vez mais antecipado e prolongado. Não para promover o espírito natalício, feito de solidariedade e amor ao próximo, mas para alargar o período da festança comercial. Pagam-se assinaturas de jornais online e canais de televisão, e leva-se com doses industriais de publicidade que não se quer nem se deseja. Há um excesso de marcas de roupa, vinhos, perfumes, cosmética, automóveis, electrodomésticos, e por aí fora, o que só aumenta a híper exposição, e submete os indivíduos, encarados como meros potenciais clientes, a uma pressão brutal para adquirir produtos, impulsiva ou compulsivamente. Esta situação é tão mais agravada quantos os progressos da tecnologia digital que, capturando os dados pessoais de cada qual, lhe personaliza e direcciona a publicidade de forma invasiva, manipulando-lhe os desejos. Impactos? Consequências deste desvario colectivo? Desperdício, degradação ambiental, poluição visual e luminosa, desigualdade social, e fadiga, muita fadiga mental no consumidor, ansiedade, “burnout”, “stress”, invasão da privacidade individual. E que dizer das fraudes, dos roubos, e da publicidade enganosa que parece incontrolável?
No mundo da net, vende-se de tudo como numa feira da ladra universal. Abundam remédios milagrosos e imediatos para a próstata, bicos-de-papagaio, obesidade, calvície, ereção, rugas, e etecetera e tal, a lista é infindável, mas os resultados são desconhecidos. No meio desta avalanche publicitária e comunicacional, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a verdade da mentira por milagres da Inteligência Artificial, a componente publicitária da política vem por arrasto na crista da onda, e está a tornar-se insuportável. Somos um país que vive mesmo em campanha eleitoral permanente. Quando não há eleição à vista, inventa-se uma dissolução. Os partidos políticos capturaram os espaços públicos e nobres das nossas vilas e cidades durante o ano inteiro, invocando o direito à liberdade de expressão. Não há nenhum outro país da Europa comunitária onde tal se passe, com tanta intensidade e permanência. Pode-se esperar sentado que as autarquias regulamentem o caos. A técnica do tik-tok fez escola. Há uma imensidão de protagonistas políticos transformados em one-man-one-women-show, escrevem o guião, fazem de realizador e interpretam o papel, com mensagens videográficas diárias por tudo e por nada. Uma banalização. Bem diz o povo: o que é demais, enjoa. Já não há paciência.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: A favelização de Portugal | Por Mendes Bota
















