“No anno de 542 achandose Diogo de freytas no Reyno de Syam na cidade Dodra capitam de hu navio, lhe fogiram três Portugueses hem hu junco q hia para China chamauase antonio da mota, francisco Zeitomo & antonio pexoto-…deu tal tormenta na popa q os apartou da terra & em pocos dias ao levate viram hua ylha em trinta & dous graus a q chamam Iapões, que parecem ser aquelas Sipangas de que tanto falam as escripturas, & suas riquezas : & assi estas também tem ouro & muyta prata & outras riquezas”
In “Tratado dos Descobrimentos”, de António Galvão, 1563.
O Japão foi conhecido dos europeus como Cipango, as notícias surgiram através dos relatos das viagens no século XIII do veneziano Marco Polo, as quais inspiraram o famoso “mapa mundi” de Fra Mauro.
Dizia-se que em Cipango havia ouro, lebre apetecida, que terá motivado a viagem de Cristóvão Colombo ao encontro da América.

Sociólogo
A medicina e farmacologia praticadas em Portugal foram introduzidas no Japão pelo médico Luís de Almeida, a sua estátua está na ilha Amakussa, onde morreu em 1584
No século XVI os portugueses na Ásia eram apenas entre 5000 e 7000 pessoas, Cochim o porto das especiarias dos mercadores privados, redes de comércio tocavam a China e o Japão, Goa era centro político e militar desde 1512.
Segundo o cronista António Galvão (1490-1557), que foi administrador das Molucas, em 1543 três marinheiros portugueses, António da Mota, António Peixoto e Francisco Zeimoto. levados por ventos e correntes ou por influência do pirata Wang Zhi, aportaram à grande ilha de Cipango, os relatos que enviaram para Portugal levantaram interesse na corte, cientistas e população.
Fernão Mendes Pinto que escreveu a famosa e muito debatida “Peregrinação” esteve no Japão em 1544, um ano depois.
O cabo de Kadokura onde os portugueses aportaram guarda ainda hoje uma pedra obelisco com inscrições em japonês.
A viagem por mar durava dois anos, os jesuítas circulavam pela Ásia, Luís Frois foi um deles, viveu no Japão três décadas, produziu crónicas com a descrição de terras com estranhos costumes governadas por senhores feudais. O missionário privou com o senhor Nobunaga e visitou o seu castelo em Azuchi.
Francisco Xavier, missionário jesuíta vindo da corte de Navarra para Portugal a pedido de D. João III, foi enviado para evangelizar na Ásia, primeiro desembarca na Índia e depois no Japão em 1549, percorre-o apresentando o cristianismo aos japoneses, consegue estabelecer três congregações católicas.
Os portugueses levaram armas de fogo inovadoras então desconhecidas, tendo provocado alterações nas armaduras japonesas que passaram de couraças em couro às de metal. No Museu da Espingarda em Tanegashima está a primeira arma fabricada no Japão com modelo português mandada executar pelo senhor Tokitaka. No “Festival das Espingardas / Teppo Matsuri” na ilha, as “teppo” são exibidas no parque de Wakassa, nome da jovem que segundo a lenda terá sido namorada de Fernão Mendes Pinto.
Houve alterações na arquitectura militar por influência dos portugueses, as fortificações em madeira foram reforçadas para pedra, tal como acontecera na Europa com o aparecimento de poderosos canhões.
Havia necessidade de comunicar com os locais, o jesuíta João Rodrigues publicou em Nagasaki em 1604 a que é hoje a mais antiga gramática da língua japonesa, intitulada “Vocabulário da Língua Iapam”, traduzida e estudada nos departamentos de linguística, com 800 páginas e 32000 entradas.
Existem dois exemplares no mundo, uma na Biblioteca de Oxford e outra propriedade de particulares. Segundo o linguista Peixoto da Fonseca haverá cerca de 4 mil palavras no japonês com origem na língua portuguesa.
A medicina e farmacologia praticadas em Portugal foram introduzidas no Japão pelo médico Luís de Almeida, a sua estátua está na ilha Amakussa, onde morreu em 1584.
A náutica foi objecto de intercâmbios, todos os anos uma nau portuguesa desfila no Festival Kunchi em Nagasaki.
Outros aspectos da influência cultural dos portuguesas no Japão foram o vestuário, o uso de chapéus, de capas e botões, na arte musical o ensino de violino, viola, flauta e órgão, nas artes visuais representações em biombos e objectos namban, em arcas de laca e madrepérola,…
A gastronomia, desenvolvida nos estabelecimentos religiosos, aparece relacionada com a tempura e o bolo “Castela”.
Acontecimento ainda hoje celebrado foi a viagem durante oito anos de quatro jovens, filhos de senhores feudais cristianizados, para visitar o Rei de Portugal e o Papa em Roma. Os jovens príncipes Chijiwa Miguel, Ito Mâncio, Hara Martinho e Nakaura Julião partiram do Japão a 20 de fevereiro de 1582, no regresso já adultos acabariam mártires.
Com a União Ibérica e a Espanha enfraquecida, os holandeses começaram a dominar o comércio, surge a Companhia Holandesa das Índias Orientais.
Pela influência crescente dos jesuítas os senhores feudais ameaçados nos valores ancestrais expulsaram os portugueses, o cristianismo foi proibido no Japão em 1639, contudo perdura na história cultural comum.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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