Enquanto Gaia é trucidada e Gaza dizimada o exemplifica na perfeição, os cadáveres empilham-se e as condições de vida degradam-se para biliões de pessoas. É por isso perfeitamente natural perguntarmo-nos até que ponto o sofrimento emocional que tantos sentimos, quer perante tudo isto, quer à sua margem, é aceitável?
Muitos experimentam uma gritante incapacidade de funcionar no mundo contemporâneo da forma em que está estruturado.
Não necessariamente de interpretar os sinais, óbvios, do que é esperado, mas de agir em conformidade.

Autor, tradutor e editor
Todos conhecemos ou somos alguém que, não obstante aparentar ter todas as condições para prosperar, não consegue encontrar satisfação porque a esmagadora obrigação tácita de estar em festa e disfrute constante, só agrava as coisas
No hiperacelerado ritmo de vida – que nos coloca numa posição em que apenas conseguimos ver a paisagem arrastada tal como quando viajamos num comboio de alta-velocidade – a questão não é já a falta de disponibilidade para sentir o outro e a sua dor, sendo que até o sofrimento está agora hierarquizado e estruturado em graus de importância.
A questão é que, dada a brutal fragmentação da nossa atenção, e a sobre-exposição permanente à catástrofe numa espécie de turismo virtual de miséria, cada vez mais parecem restar apenas duas formas polarizadas de estar:
– os que observam a realidade apenas a partir de si mesmos e se orgulham dos triunfos numa vida gamificada
– os que não conseguem evitar a depressão e o isolamento fruto da incapacidade de, quer aceitar, quer lidar, com esta construção do real, e que tantas vezes são estigmatizados como padecendo de problemas de primeiro mundo.
Este estado depressivo geral alimenta toda uma indústria de auto-ajuda, bem estar, life coaches e influencers que apresentam propostas para melhorar a saúde mental, mas nunca o mundo real, redundando em mais um nicho de mercado.
Claro que a gravidade desta tristeza existencial é diferente de pessoa para pessoa, e para algumas torna-se depressão profunda.
Todos conhecemos ou somos alguém que, não obstante aparentar ter todas as condições para prosperar, não consegue encontrar satisfação porque a esmagadora obrigação tácita de estar em festa e disfrute constante, só agrava as coisas.
Assim como a obsessão com a persecução de felicidade, constantemente prometida em todos os actos de consumo, que funcionam no fundo como compensação que facultamos a nós próprios por sermos forçados a existir em permanente modo de sobrevivência.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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