Conduzir em Espanha continua a ser um desafio para muitos motociclistas, sobretudo nas estradas secundárias, onde a sinistralidade preocupa as autoridades. Para reduzir os acidentes em curvas perigosas, a Catalunha está a testar uma solução inovadora que já permitiu baixar em 70% o número de sinistros em certos troços.
De acordo com o jornal espanhol La Vanguardia, a iniciativa partiu do Servei Català de Trànsit (SCT), que começou a aplicar marcas específicas no asfalto em dois percursos sinuosos: a Collada de Toses (N-260) e a estrada de Prats de Lluçanès (B-124). Estas linhas foram concebidas para guiar os motociclistas na trajetória correta, sem interferir com os restantes condutores.
Em Portugal, medidas semelhantes têm vindo a ser analisadas, sobretudo em regiões com elevada concentração de acidentes em curvas fechadas. A experiência catalã surge assim como um modelo que pode inspirar novas políticas de segurança rodoviária no sul da Europa.

Curvas que matam: o desafio das estradas secundárias
De acordo com os dados do SCT, os motociclistas representam cerca de 30% das vítimas mortais nas estradas catalãs. Só este ano, até setembro, 34 pessoas perderam a vida em acidentes de moto em vias interurbanas ao conduzir em Espanha. O padrão é claro: a maioria dos sinistros ocorre em curvas mal calculadas ou devido a invasão do sentido contrário.
Para contrariar esta tendência, o SCT lançou em 2019 uma prova-piloto na estrada BV-2115, junto ao reservatório de Foix, no município de Castellet i la Gornal. Nesse troço, de 3,7 quilómetros e 22 curvas, foram aplicadas linhas horizontais e sinais verticais direcionados exclusivamente a motociclistas.
O objetivo era simples: ajudar o condutor a manter a trajetória correta e evitar ultrapassar a faixa central da estrada. O resultado foi surpreendente. Seis anos depois, as mortes e feridos graves reduziram-se em cerca de 70%. Antes da intervenção, registavam-se até seis acidentes graves por ano; agora, raramente passam de um ou dois.
Um modelo europeu que chega ao sul
O sucesso da experiência levou o SCT a expandir o projeto para novas vias. A Collada de Toses, que liga o Ripollès à Cerdanya, e a estrada B-124, entre Sabadell e o Moianès, foram as escolhidas.
As novas marcas no pavimento, de formato circular e colocadas com maior antecedência antes das curvas, pretendem reforçar a leitura visual da estrada e ajudar o motociclista a preparar-se para o movimento seguinte.
Segundo o Departamento de Território e Transição Ecológica da Generalitat, as marcas circulares têm mostrado bons resultados em vários países europeus, como Áustria e Luxemburgo, onde já foram implementadas em curvas perigosas.
A experiência austríaca como referência
Em declarações à imprensa espanhola, Martin Winkelbauer, especialista da Junta de Segurança Rodoviária da Áustria, explica que estas marcas funcionam como referência visual imediata, sem distrair o condutor.
“O importante é que todos os motociclistas sabem que as linhas no asfalto são áreas escorregadias. Isso faz com que instintivamente se afastem delas e mantenham a trajetória mais segura”, afirma.
O conceito é simples mas eficaz: pintura estratégica e psicologia aplicada à condução. A sinalização no asfalto atua como lembrete visual e incentiva o motociclista a respeitar o traçado da curva, evitando movimentos bruscos.
Limitações e desafios futuros
Apesar dos bons resultados, nem tudo está resolvido. O próprio SCT reconhece que o estado do piso em alguns troços permanece deficiente, com irregularidades e fissuras que comprometem a aderência.
De acordo com o La Vanguardia, em publicações recentes de utilizadores no Instagram, vários motociclistas denunciaram o mau estado do pavimento em zonas agora sinalizadas.
A entidade recorda, contudo, que a manutenção das estradas é da responsabilidade do titular da via, seja o Estado central ou as autarquias, e não do SCT.
Ainda assim, o organismo catalão defende que o próximo passo deve passar por envolver as deputações e ministérios para estender este tipo de sinalização a toda a rede viária.
Um pequeno detalhe que salva vidas
Em segurança rodoviária, as soluções mais simples costumam ser as mais eficazes. O caso catalão demonstra que pequenas alterações no asfalto podem salvar dezenas de vidas por ano, sobretudo entre os utilizadores mais vulneráveis: os motociclistas.
Com resultados consistentes e uma redução real da sinistralidade, as marcas viais específicas para motos poderão, no futuro, tornar-se obrigatórias em curvas de alto risco, não só para quem vai conduzir em Espanha, mas também em Portugal e noutros países da União Europeia.
















