O presidente da Câmara de Albufeira, Rui Cristina, defendeu esta sexta-feira que a construção da dessalinizadora do Algarve deve ser “uma solução de fim de linha” e exigiu um Estudo de Impacto Ambiental “sério, completo e sem falhas”.
Rui Cristina (Chega) sublinhou, num comunicado, que não é contra a construção da infraestrutura, que arranca na próxima semana e deverá estar concluída em 2028, mas realçou que não aceita que “seja apresentada como a primeira solução para um problema estrutural”.
“A dessalinização é uma solução de fim de linha, de último recurso, que só devia avançar depois de termos levado a sério outras respostas essenciais: os transvases, a barragem da Foupana, as bacias de retenção, a recarga dos aquíferos com efluentes tratados das ETAR e, sobretudo, o combate real às perdas das redes de abastecimento de água no Algarve”, apontou.
O autarca de Albufeira entende que atualmente existe “tempo para decidir com rigor”.
“O que exijo é simples, se houver dessalinizadora, então que exista um Estudo de Impacto Ambiental sério, completo e sem falhas. Porque estamos a falar de uma infraestrutura prevista para uma das zonas costeiras mais belas e valiosas do mundo, num território com um património natural único, ecossistemas marinhos sensíveis, praias de excelência com bandeiras azuis que temos a obrigação de proteger”, defendeu.
Rui Cristina questionou ainda porque o Estudo de Impacto Ambiental não tenha integrado “devidamente os molhes da Marina de Vilamoura e da Praia de Quarteira” e como pode “avançar sem avaliar com rigor os efeitos da salmoura numa costa com ventos predominantes de poente para nascente”.
“É legítimo temer que o molhe da marina de Vilamoura possa favorecer a acumulação e deposição da salmoura, com risco de arrastamento para os areais”, frisou o autarca do Chega
Rui Cristina defendeu “soluções seguras, bem estudadas e ambientalmente responsáveis” e realçou que “o Algarve não pode aceitar decisões apressadas, estudos incompletos ou experiências mal calculadas”.
“Peço prudência e responsabilidade para defender a salvaguarda deste património de elevado valor ambiental, económico e turístico. O Algarve não pode voltar a ficar para trás nas grandes opções de investimento do Governo. Não posso aceitar que esta obra avance desta forma”, concluiu.
A construção da dessalinizadora do Algarve, em Albufeira, arranca na próxima semana e deverá estar concluída em 2028, após ter sido formalizado na terça-feira o início da empreitada pública, informou na quinta-feira a Águas do Algarve.
O auto de consignação da obra, orçada em 108 milhões de euros, foi assinado na terça-feira pela empresa, promotor, e o empreiteiro, um consórcio luso-espanhol que vai ficar responsável pela exploração do empreendimento por um período de três anos, após a conclusão da obra.
Segundo a entidade responsável pelo sistema multimunicipal de abastecimento de água e saneamento da região, o início dos trabalhos foi autorizado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), “após concluir a avaliação dos elementos prévios previstos na Decisão de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (DCAPE), emitida em novembro de 2025.
A viabilidade do projeto está, contudo, “condicionada ao cumprimento de um conjunto rigoroso de medidas de mitigação, minimização, monitorização e compensação ambiental”, referiu a Águas do Algarve.
A infraestrutura integra a estratégia nacional de reforço da segurança hídrica e de adaptação às alterações climáticas, visando garantir uma nova origem de água potável para o Algarve, uma região particularmente vulnerável à seca.
Governo cria grupo para acompanhar dessalinizadora do Algarve
O Governo criou o Grupo de Acompanhamento da Estação de Dessalinização do Algarve (EDAMA) para monitorizar a construção da infraestrutura e garantir transparência e participação das entidades envolvidas no projeto, foi esta sexta-feira anunciado.
Em comunicado, o Ministério do Ambiente indicou que o grupo vai ser presidido pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e integrará municípios, representantes de pescadores, organizações não-governamentais do ambiente, a Região de Turismo do Algarve e a Universidade do Algarve, visando uma abordagem abrangente ao desenvolvimento do projeto.
O objetivo é garantir “uma obra acompanhada de perto pelas comunidades e pelas comunidades e entidades que conhecem o território”, refere a ministra do Ambiente, citada na nota do Ministério do Ambiente e Energia.
“Este grupo de acompanhamento garante transparência, confiança e qualidade na execução de um investimento estruturante para a região”, garante Maria da Graça Carvalho.
A estação de dessalinização do Algarve é apontada como resposta aos desafios da escassez de água, “num contexto de alterações climáticas e maior variabilidade dos recursos hídricos”, devendo a sua utilização obedecer a critérios de eficiência ambiental, racionalidade económica e segurança no abastecimento.
Num segundo despacho, a ministra determinou ainda que a APA avalie o regime de funcionamento da infraestrutura, prevendo que “a sua exploração em plena capacidade seja reservada às situações de escassez hídrica, como último recurso” para o abastecimento público.
Maria da Graça Carvalho considera que a água dessalinizada constitui “um seguro estratégico para situações de escassez”, frisando que “não substitui a necessidade de uma gestão mais eficiente” dos recursos hídricos existentes.
O enquadramento agora definido entra em vigor de imediato, estabelecendo regras para o arranque da infraestrutura e prevendo o envolvimento alargado das entidades do território.
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