Encontrar, no pico do verão, um recanto sossegado no Algarve parece missão impossível. No entanto, longe dos chapéus de sol enfileirados e das esplanadas apinhadas de turistas, existe um areal quase secreto onde ainda se pode escutar o murmúrio do mar sem mais nada. Falamos da Praia da Barrinha, ponto recôndito da Ria Formosa que mantém, mesmo em agosto, o estatuto de ‘praia deserta’.
Onde fica e por que continua “deserta”
Situada na extremidade poente da Península do Ancão (por muitos ainda apelidada de Ilha de Faro), a Praia da Barrinha oferece uma frente atlântica ampla, com vista privilegiada para a Ilha Deserta (ou Barreta). É uma zona integrada no Parque Natural da Ria Formosa, classificado como Sítio Ramsar e parte da Rede Natura 2000, servindo de refúgio a centenas de espécies de aves limícolas e a vegetação dunares raras.
O principal motivo pelo qual o areal permanece quase sem gente reside no acesso: quem parte da Praia de Faro atravessa a ponte pedonal e precisa de caminhar cerca de dois quilómetros sobre passadiços de madeira que serpenteiam o sapal; quem não quer andar tanto pode optar por um barco-táxi a partir do Cais das Portas do Mar, em Faro, mas a viagem, sujeita a marés e reserva antecipada, não está no radar da maioria dos veraneantes, refere o blog Visit Portugal.
Uma praia sem bares nem música de fundo
A ausência de infraestruturas turísticas reforça o ambiente intocado. Não há bares nem restaurantes, não se alugam espreguiçadeiras e o serviço de nadadores-salvadores é limitado a fins de semana de maior procura. A gestão do parque recusa instalar equipamentos fixos para não desvirtuar o ecossistema dunar, pelo que quem chega deve levar consigo tudo o que precisa para o dia, desde água a sombra portátil.
Curiosamente, foi inaugurado em 2015 um passadiço de madeira elevado que protege as plantas psamófilas, como o estorno marítimo e o cordeirinho-das-praias, permitindo atravessar as dunas sem pisoteá-las. A passadeira, de cerca de 1,8 km, tem painéis informativos sobre flora e avifauna, convidando a uma caminhada interpretativa antes de chegar ao oceano.
Segurança e particularidades da maré
A designação “Barrinha” deriva da barra estreita que liga a laguna ao Atlântico. A corrente ali é forte, sobretudo na enchente, o que exige cautela aos banhistas que se aventuram fora da zona vigiada. Por outro lado, na baixa-mar formam-se longos bancos de areia onde se pode estender a toalha em plena Ria Formosa, cenário considerado pela mesma fonte como ideal para quem gosta de fotografar.
Os praticantes de kitesurf e stand up paddle aproveitam a lagoa interior, normalmente mais resguardada do vento. Em contrapartida, o surf de ondas realiza-se do lado oceânico, mas apenas quando a barra não está demasiado agitada. A Autoridade Marítima alerta para mudanças rápidas das correntes, recomendando respeito pela sinalização existente e consulta prévia do estado da maré.
Reserva natural de aves migradoras
Entre agosto e outubro, milhares de pernilongos, alfaiates e flamingos fazem ‘escala’ nos sapais vizinhos antes de prosseguirem rumo a África. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves organiza, nesta época, saídas guiadas ao nascer do sol, partindo do mesmo cais que serve de ponto de embarque para a Barrinha. O bilhete inclui binóculos e dura cerca de duas horas, terminando com uma breve aula de identificação de espécies.
Além das aves, o sistema dunar acolhe o camaleão-comum, cada vez mais raro noutras zonas do Algarve. A espécie é facilmente avistada ao entardecer, quando atravessa vagarosamente o passadiço em busca de insetos.
Dicas para uma visita responsável
Quem planeia passar o dia nesta praia deserta deve levar água suficiente, refeições ligeiras e, de preferência, um guarda-sol portátil. O uso de protetor solar mineral é encorajado para reduzir o impacto de filtros químicos na fauna marinha.
Quanto ao lixo, não existem contentores no areal; a regra de ouro é transportar tudo de volta, e a administração do parque regista cada vez mais visitantes que aderem ao conceito “leave no trace”, de acordo com a mesma fonte.
Nos meses de maior calor, convém começar a caminhada cedo (antes das 10h) ou apanhar o primeiro barco da manhã, garantindo sombra natural numa das reentrâncias da duna primária.
Localização desta praia deserta
A Praia da Barrinha fica a cerca de 10 quilómetros do centro de Faro, seguindo por estrada até à ponte da Praia de Faro; daí, é necessário percorrer mais dois quilómetros a pé pelos passadiços até ao areal. Em alternativa, pode apanhar um barco-táxi a partir do Cais das Portas do Mar: a travessia dura, em média, 15 minutos (o tempo varia consoante a maré) e custa 10 euros ida-e-volta por adulto ou 6 euros para crianças, com lotação máxima de oito passageiros, refere o blog Visit Algarve.
Quem opta por chegar de carro encontra estacionamento gratuito junto à ponte da Praia de Faro, embora os lugares sejam escassos em agosto. Para os amantes de fotografia, a melhor altura do ano segundo quem visita é o pôr-do-sol de setembro, quando o céu ganha tonalidades rosadas sobre o sapal da Ria Formosa.
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