“— Cá vamos andando!” Foi assim — contou Rodrigo Borges de Freitas, presidente do CDS‑PP Algarve, numa nota de pesar — que José Carlos Rolo respondia, com aquela simplicidade firme, às perguntas de circunstância sobre a saúde. Há respostas que parecem pequenas e que afinal revelam tudo: a economia de palavras, a serenidade sem pose, a ideia de que a vida — mesmo quando dói — se atravessa com um pé à frente do outro. Para muitos, José Carlos Rolo era isso: um homem que não precisava de dramatizar para ser firme, nem de se impor para ser ouvido. Um homem de regras (as da Matemática, as da escola, as da administração pública), mas sobretudo de pessoas.

Nasceu a 30 de janeiro de 1956, em Domingos da Vinha, Belver, no concelho de Gavião. O mapa diria Alto Alentejo; a vida diria outra coisa: que, mais do que o lugar onde se nasce, conta o lugar onde se decide ficar. E José Carlos Rolo decidiu ficar em Albufeira, onde viveu mais de quatro décadas — tempo suficiente para que uma terra deixe de ser destino e passe a ser pertença. Foi um daqueles casos raros em que a biografia não é uma soma de cargos, mas uma linha contínua: ensinar, organizar, servir.
A sua primeira grande instituição foi a escola, esse país dentro do país onde tudo começa e quase tudo se decide. Licenciou-se em Matemática e fez mestrado em Gestão e Políticas Públicas. Mas não foi apenas um professor: foi, durante mais de uma década, presidente do conselho diretivo da Escola Secundária de Albufeira, a partir de 1986 — anos em que a autoridade se construía mais no tom e na coerência do que em discursos. Mais tarde, já fora da sala de aula, assumiu responsabilidades dirigentes na área da educação, incluindo funções de direção de serviços. Quem o conheceu desse tempo recorda um traço que nunca o abandonou: a crença teimosa de que as instituições não são abstrações, são gente — e que a palavra “serviço” não é um ornamento, é um método.
A política autárquica surgiu como acontecem as grandes mudanças em certas vidas: não como fuga, mas como extensão. Em 2001, entrou na Câmara Municipal de Albufeira como vereador e vice-presidente, num executivo social-democrata liderado por Desidério Silva. A partir daí, a sua carreira pública seguiu o ritmo exigente e por vezes ingrato do poder local: dossiers, pelouros, obras, decisões que nunca agradam a todos e, ainda assim, têm de ser tomadas. Antes disso, já tinha passado pela Assembleia Municipal e pela estrutura concelhia do PSD — essa outra escola, a da política, onde se aprende depressa que o consenso é mais difícil do que o aplauso.
Chegou à presidência da Câmara pela primeira vez em 2012, por cerca de um ano, na sequência da renúncia de Desidério Silva. E voltou a chegar — desta vez com o peso emocional que nenhum manual ensina — em 2018, após a morte de Carlos Silva e Sousa. Há transições que se fazem com festa; esta fez-se com silêncio e com a obrigação de manter a cidade a funcionar quando tudo à volta parece suspenso. Foi também reeleito mais tarde, encabeçando a coligação “Ser Albufeira”. No fim, permaneceu no cargo até 2025.
Em outubro de 2025, perdeu a liderança da autarquia para Rui Cristina, do Chega. A democracia tem esta crueldade limpa: permite que a obra continue e, ao mesmo tempo, obriga a que a cadeira mude de dono. José Carlos Rolo aceitou essa mudança como se aceitam as coisas que não se controlam — com a mesma contenção de quem sabe que o essencial não está no aplauso de um dia. Manteve-se como vereador, sem pelouros atribuídos, numa espécie de crepúsculo administrativo que, para muitos, é a parte menos falada e mais reveladora da política: quando já não se manda, mas ainda se está presente.
A morte chegou cedo demais, aos 70 anos, depois de um internamento no Hospital de Faro e de uma cirurgia de urgência relacionada com um antigo problema intestinal que se agravou nos últimos dias. O Presidente da República lembrou-o “com saudade e amizade” e sublinhou que o seu legado perdurará tanto na educação como no serviço autárquico. O Município decretou luto municipal; o PSD Algarve também. Numa comunidade, os sinais contam: a bandeira a meia haste, as notas de pesar, as frases repetidas — integridade, lealdade, discrição, ponte. Às vezes, o que parece formulaico é apenas a tentativa de dizer, com as palavras disponíveis, que uma ausência muda a paisagem.
Havia ainda outra pertença, menos institucional e mais voluntária: o Rotary. Desde 1991, José Carlos Rolo foi rotário em Albufeira, presidiu ao clube em dois mandatos, foi secretário, recebeu a distinção Paul Harris Fellow e, em 2018, tornou-se membro honorário. Quem anda nestas geografias do serviço sabe o que isso significa: o trabalho que não sai nas fotografias oficiais, a filantropia sem estrondo, o gesto feito porque é preciso fazê-lo.
Talvez por ter começado na escola, José Carlos Rolo nunca pareceu deslumbrado com o palco. A escola ensina duas coisas que a política às vezes esquece: que ninguém aprende sob gritos e que a autoridade, quando é boa, não humilha. A ele atribuíram “espírito agregador”, “capacidade de diálogo”, “vontade de unir”. Pode soar a elogio previsível — mas, no tempo em que vivemos, talvez seja precisamente isso que torna uma vida menos previsível: ter passado por disputas, eleições, vitórias e derrotas, e ter sido recordado, antes de mais, como alguém que não crispa.
Ficam a cidade e os seus hábitos, a máquina municipal que não pára, as gerações que aprenderam com o professor, os colegas que com ele trabalharam, os adversários que reconheceram a cordialidade do confronto. E fica, sobretudo, aquela frase curta, quase um encolher de ombros perante o inevitável: “Cá vamos andando!” Como quem diz: a vida é dura, mas é para continuar — e continuar, em Albufeira, foi a forma que José Carlos Rolo encontrou de servir.
À família e amigos, as condolências sentidas.
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