As praias do norte de Espanha enfrentam uma situação que tem exigido medidas fora do habitual. Desde finais de julho, as autoridades locais têm sido obrigadas a interditar banhos em várias zonas costeiras devido à presença de uma espécie marinha associada a picadas dolorosas e potencialmente perigosas.
Trata-se da Physalia physalis, conhecida como caravela-portuguesa. Segundo o jornal El Confidencial, estes organismos têm sido avistados em grande número em praias do País Basco, da Cantábria e das Astúrias, incluindo zonas bastante frequentadas, como San Sebastián, Deba ou Zarautz. A sua presença obrigou ao içar de bandeiras vermelhas em várias ocasiões, numa tentativa de evitar contactos entre banhistas e os tentáculos urticantes da espécie.
Praias fechadas e preocupação redobrada
Segundo a mesma fonte, a baía de La Concha, em San Sebastián, é particularmente propícia ao aparecimento de caravelas, devido à sua configuração geográfica, que dificulta a saída dos exemplares após entrarem na zona. Na última semana, só nesta região, foram registados vários incidentes relacionados com contactos acidentais.
Josep María Gili, cientista do Instituto de Ciências do Mar do CSIC, citado pelo El Confidencial, considera que “não é uma questão de alarmismo, mas de prudência”. O especialista afirma que a caravela-portuguesa “é, de longe, a espécie mais perigosa que chega às nossas costas”, destacando a extensão dos seus tentáculos, que podem ultrapassar os dez metros e conter centenas de milhares de células urticantes.
Casos aumentam e medidas são reforçadas
Só na costa da Biscaia, desde 15 de julho, foram registadas 52 picadas, mais do dobro das registadas no mesmo período do ano passado. Em Cantábria, em apenas sete dias, somaram-se 84 casos. Nos dias 5 e 6 de agosto, foram contabilizados 13 e 16 incidentes, respetivamente, em toda a costa basca.
Ricardo Aguilar, diretor de expedições da ONG Oceana, explica ao jornal espanhol que os tentáculos da caravela são quase invisíveis e que, mesmo estando o corpo principal à vista, é possível ser atingido sem que se perceba. Acrescenta que as caravelas podem continuar a disparar o veneno mesmo depois de os tentáculos estarem rompidos, o que aumenta a sua perigosidade.
Como reagir a uma picada
As picadas provocam dor intensa, ardor, náuseas, vómitos e, em casos mais graves, dificuldades respiratórias ou reações alérgicas. Segundo Gili, a segunda exposição pode ser ainda mais perigosa, podendo levar a um choque anafilático. É, até à data, a única espécie marinha com registo de casos de mortalidade em situações deste género. Assim sendo, o investigador sublinha que, perante a presença desta espécie, “temos que fechar praias”.
O protocolo recomendado passa por remover eventuais restos de tentáculos da pele com água do mar, sem friccionar, e aplicar calor localizado com água a cerca de 40 a 45 graus durante 15 segundos. Caso os sintomas persistam, deve procurar-se assistência médica imediata. Gili aconselha ainda a evitar o mar em dias com avistamentos e optar por piscinas ou praias alternativas.
Fenómeno pode durar mais duas semanas
O aparecimento da Physalia physalis não é novo, mas tem-se intensificado nos últimos anos. De acordo com o El Confidencial, os especialistas apontam o aquecimento global como fator determinante.
As alterações nas correntes, nos ventos e na temperatura da água estão a empurrar estas espécies oceânicas para latitudes mais elevadas, aumentando a sua presença no Atlântico Norte e até em zonas do Mediterrâneo.
Gili refere que o fenómeno está prestes a terminar. “Estamos no final do seu ciclo biológico. As caravelas vivem em mar aberto, reproduzem-se, sobem à superfície e acabam por ser arrastadas para a costa, onde morrem ao fim de dois ou três dias”, explica o investigador. Apesar disso, o especialista recomenda precaução até ao desaparecimento total dos exemplares da faixa costeira.
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