A forma como os olhos vagueiam pelo mundo pode conter sinais de como a memória está a funcionar. Investigadores analisaram padrões de movimentos oculares em jovens e idosos e concluíram que pequenas mudanças, quase impercetíveis, podem estar ligadas a problemas de cognição e de memória.
De acordo com a revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), onde foi publicado o estudo, as alterações nos trajetos do olhar podem ajudar a identificar dificuldades na forma como o cérebro processa e guarda informação.
Testes com diferentes grupos
Os investigadores recorreram a testes de monitorização ocular, envolvendo participantes jovens e idosos. Entre os voluntários, alguns apresentavam já diagnósticos de condições que afetavam a memória. Esta diversidade permitiu comparar a influência da idade e da saúde cerebral nos padrões visuais.
Foram realizadas duas experiências distintas. Num dos ensaios, os participantes observavam imagens únicas. No outro, as mesmas imagens eram repetidas, o que ajudava a perceber como o cérebro reagia à novidade e como se adaptava ao familiar.
Os resultados mostraram que pessoas com memória mais fragilizada seguiam trajetórias visuais muito semelhantes de imagem para imagem. Em vez de explorarem diferentes detalhes, fixavam-se nos mesmos pontos, de forma repetitiva, sem captar o conjunto completo do que estavam a ver. Segundo os autores, esta falta de dispersão no olhar sugere uma limitação na capacidade exploratória do cérebro.
Relação entre os olhos e o hipocampo
Estudos anteriores já tinham associado o movimento ocular ao hipocampo, a zona do cérebro responsável por processos de memória. Neste novo trabalho, observou-se que quanto menor era a função de memória, mais estreito se tornava o padrão visual dos participantes. O olhar ficava menos adaptativo e menos diferenciado.
Ainda que os investigadores não avancem com explicações definitivas para este fenómeno, deixam aberta a possibilidade de que alterações no centro da memória possam refletir-se nos olhos. Em termos práticos, isto pode significar que um simples registo da forma como alguém olha para uma imagem poderia, no futuro, servir como sinal de alerta precoce para problemas de memória.
Potencial para deteção precoce da demência
Embora ainda distante da aplicação clínica, este tipo de análise pode tornar-se uma alternativa mais simples e económica do que exames cerebrais ou longos questionários. Segundo os autores do estudo, os padrões naturais do olhar podem vir a ser usados como marcadores sensíveis de declínio cognitivo, incluindo em doenças como a demência e o Alzheimer.
As conclusões reforçam uma linha crescente de investigação que procura sinais precoces da doença nos olhos. Para além da forma como o olhar se move, já tinham sido estudadas características como a retina e a pupila. Mas este trabalho acrescenta uma nova dimensão à deteção: a trajetória silenciosa dos olhos.
De acordo com a PNAS estas descobertas podem abrir caminho a ferramentas inovadoras de diagnóstico precoce, capazes de revelar o que o cérebro prefere esconder.
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