Quem vive com tensão arterial alta costuma ouvir o mesmo aviso repetido vezes sem conta: evite café. Mas a evidência científica mais recente mostra que a relação entre cafeína e hipertensão é mais complexa do que parece. Em muitos casos, o consumo moderado de café não só não agrava a situação como pode ser compatível com uma pressão arterial controlada, desde que alguns cuidados básicos sejam respeitados.
A dúvida é comum e legítima. Afinal, a cafeína é um estimulante e pode provocar alterações temporárias na frequência cardíaca e na pressão arterial. A questão central não é se o café é proibido, mas sim em que contexto, quantidade e circunstâncias deve ser consumido.
O que significa, afinal, ter tensão alta?
A pressão arterial corresponde à força exercida pelo sangue contra as paredes das artérias. É medida através de dois valores. O primeiro é a pressão sistólica, registada quando o coração se contrai e bombeia o sangue. O segundo é a pressão diastólica, medida quando o coração relaxa e se enche novamente de sangue.
De acordo com os critérios clínicos, considera-se normal uma pressão inferior a 120/80 mmHg. Valores persistentemente acima deste limiar configuram hipertensão, uma condição que aumenta o risco de doença cardiovascular, AVC e insuficiência renal se não for devidamente controlada.
O impacto real do café na pressão arterial
A cafeína atua como estimulante do sistema nervoso central. Ao ser ingerida, pode levar à libertação de adrenalina, provocar uma ligeira contração dos vasos sanguíneos e aumentar temporariamente a pressão arterial. Segundo o Science Alert, publicação australiana especializada em ciência e saúde, este efeito tende a atingir o pico entre 30 minutos e duas horas após o consumo.
No entanto, esse aumento é geralmente transitório e mais pronunciado em pessoas que não consomem café regularmente. Em consumidores habituais, o organismo desenvolve tolerância, reduzindo significativamente o impacto da cafeína na pressão arterial.
De acordo com a publicação, várias análises científicas não encontraram uma associação direta entre o consumo regular de café e o desenvolvimento de hipertensão a longo prazo, mesmo quando analisados fatores como idade, género, tabagismo ou consumo de café com e sem cafeína.
O café aumenta o risco de hipertensão?
Uma revisão de estudos que acompanhou centenas de milhares de pessoas ao longo de vários anos concluiu que o consumo moderado de café não está associado a um risco acrescido de desenvolver hipertensão, explica o Science Alert. Em alguns casos, foi mesmo observada uma ligeira redução do risco cardiovascular em consumidores regulares e moderados.
Isto não significa que o café seja inofensivo em todos os casos. Pessoas particularmente sensíveis à cafeína podem sentir palpitações, nervosismo ou aumentos mais acentuados da pressão arterial. É por isso que a avaliação deve ser sempre individual.
O que deve vigiar antes da próxima chávena
Para quem tem tensão alta e não abdica do café, há sinais e comportamentos que merecem atenção. Conhecer os seus valores de pressão arterial e perceber como o corpo reage à cafeína é essencial. Evitar beber café imediatamente antes de medir a tensão ajuda a evitar leituras artificialmente elevadas.
Outro ponto importante passa pelo horário. Consumir café ao final da tarde pode interferir com o sono, o que, indiretamente, também prejudica o controlo da pressão arterial. Segundo a mesma fonte, a privação de sono está associada a maior risco cardiovascular.
A moderação continua a ser a regra de ouro. A maioria das recomendações aponta para um limite de duas a três chávenas por dia, preferencialmente distribuídas ao longo da manhã.
Quando é aconselhável ter cautela extra
Há situações em que o consumo de café deve ser discutido com o médico assistente. Pessoas com hipertensão não controlada, arritmias, ansiedade marcada ou que estejam a iniciar medicação anti-hipertensora podem necessitar de ajustes temporários.
Ainda assim, como explica o Science Alert, para a maioria das pessoas com tensão arterial controlada, o café não precisa de ser eliminado da rotina diária, desde que consumido com atenção e consciência.
No fim de contas, a relação entre café e pressão arterial não se resume a uma proibição absoluta. Conhecer o próprio corpo, vigiar os sinais e respeitar limites pode permitir continuar a desfrutar da chávena diária sem comprometer a saúde.
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