É um gesto quase automático para milhões de portugueses, repetido logo pela manhã ou ao longo do dia, muitas vezes sem grande reflexão. No entanto, novas evidências científicas sugerem que este hábito quotidiano pode estar associado a um benefício inesperado para a saúde do cérebro, ajudando a reduzir o risco de demência e de declínio cognitivo com o avançar da idade.
Um estudo publicado na revista científica JAMA analisou dados recolhidos ao longo de mais de quatro décadas e concluiu que o consumo moderado de café está associado a uma menor probabilidade de desenvolver demência, quando comparado com a ausência ou o consumo muito reduzido desta bebida.
De acordo com a investigação, divulgada pelo site científico Science Alert e citada pelo Notícias ao Minuto, as pessoas que consumiam entre duas e três chávenas de café por dia apresentavam um risco cerca de 18 por cento inferior de desenvolver demência.
Um acompanhamento ao longo de 43 anos
A análise teve por base dados de quase 132 mil participantes, acompanhados desde a década de 1980. O estudo incluiu 86.606 mulheres e 45.210 homens, que ao longo de vários anos responderam a questionários regulares sobre hábitos alimentares, consumo de bebidas com cafeína e alterações percebidas na memória, atenção e outras capacidades cognitivas.
Segundo a publicação, os investigadores avaliaram o consumo de cafeína através de questionários realizados a cada dois a quatro anos, cruzando essa informação com registos de declínio cognitivo e diagnósticos de demência ao longo do tempo.
Café com cafeína faz a diferença
Um dos aspetos mais relevantes do estudo prende-se com a distinção entre café com cafeína e café descafeinado. Os resultados mostram que não foi encontrada uma associação significativa entre o consumo de café descafeinado e a redução do risco de demência.
Este dado sugere que a cafeína poderá desempenhar um papel central no efeito observado. De acordo com os investigadores, tanto o café como o chá com cafeína estiveram associados a melhores resultados em testes cognitivos, quando comparados com bebidas sem cafeína.
Daniel Wang, nutricionista envolvido na investigação, citado pela publicação, sublinha que os resultados devem ser interpretados com prudência.
Apesar de positivos, os efeitos observados são modestos e não substituem outras estratégias comprovadas de proteção da função cognitiva.
Moderação continua a ser essencial
Os autores do estudo reforçam que os benefícios parecem estabilizar com um consumo moderado, situado entre duas e três chávenas por dia. Quantidades superiores não demonstraram vantagens adicionais, nem foram associadas a efeitos negativos relevantes no âmbito desta análise.
Ainda assim, os especialistas alertam que o café não deve ser encarado como uma solução isolada. A proteção do cérebro resulta de um conjunto de fatores, incluindo alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado e controlo de fatores de risco cardiovasculares.
Resultados consistentes com outras investigações
Este estudo junta-se a outras investigações que apontam no mesmo sentido. Uma análise anterior da base de dados UK Biobank, envolvendo mais de 20 mil participantes, concluiu que os consumidores de café apresentavam um risco 34 por cento inferior de desenvolver Alzheimer e uma redução de 37 por cento no risco de Parkinson.
De acordo com o Notícias ao Minuto, estes dados reforçam a ideia de que o consumo moderado de bebidas com cafeína pode integrar um padrão de hábitos associados a um envelhecimento cerebral mais saudável.
O que significam estas conclusões no dia a dia
Os especialistas são claros ao afirmar que beber café não garante, por si só, proteção contra a demência. No entanto, os dados sugerem que este hábito comum pode ser uma peça adicional no puzzle da prevenção do declínio cognitivo, quando integrado num estilo de vida globalmente saudável.
Como resume Daniel Wang, citado pela publicação, o café pode contribuir, mas não substitui outras medidas fundamentais para manter o cérebro ativo e protegido ao longo da vida.
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