As alpercatas eram ‘sapatos’ em borracha que só os mais pobres de entre os pobres usavam, no verão e no inverno sem peúgos, porque não tinham dinheiro para comprar uns sapatos ainda que fossem baratos.
Hoje não existem à venda alpercatas em borracha como até meados do século passado, mas existem sapatos sucedâneos em materiais menos agrestes e imitando a ‘moda’, também denominados por ‘alpercatas’. Isto é: continua a haver “alpercatas” porque os mais pobres continuam a não ter dinheiro para terem sapatos dignos desse nome. São os descendentes sociais daqueles que usavam alpercatas de borracha.
As classes sociais, as quais são relativamente estanques, reproduzem-se inexoravelmente ao longo dos séculos, em todas as sociedades atuais, embora com aparências distintas.
Tal como os homens livres deixaram de ser escravos e passaram a ter que trabalhar para sobreviver, por serem livres já não tinham um dono para lhes dar de comer, também hoje os trabalhadores (mais eufemisticamente chamados de colaboradores) têm que trabalhar para não morrerem à fome e muitos usam alpercatas porque também não têm dinheiro para mais e ‘estão na moda’.
Eufemisticamente dão-se os mesmos nomes a coisas ligeiramente diferentes para nos enganarmos a nós próprios fingindo que somos abastados e livres, mas a realidade das duas grandes classes sociais não engana os mais lúcidos, somos livres como os caçadores recolectores eram há muitos milhares de anos atrás.
A realidade parece-nos cor de rosa apenas em épocas de eleições, mas a estrutura existencial da espécie humana continua idêntica a si própria ao longo dos milénios.
As alpercatas alpercam na Sociedade, com raízes muito profundas, como as plantas gramíneas na terra.
A Sociologia permite-nos ver a realidade de outra forma.
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