Depois de um janeiro excecionalmente chuvoso e de um início de fevereiro marcado por sucessivas depressões atlânticas, o anticiclone dos Açores volta a surgir nos mapas meteorológicos e deverá começar a influenciar o tempo em Portugal a partir de meados de fevereiro. A mudança de padrão está sinalizada para o período do Dia de São Valentim e poderá traduzir-se numa redução significativa da precipitação, ainda que sem garantir um cenário prolongado de estabilidade.
De acordo com o Luso Meteo, plataforma portuguesa especializada em meteorologia e ciências atmosféricas, o regresso do anticiclone surge após um longo período de bloqueio em latitudes altas, responsável por manter a Península Ibérica sob a influência de sucessivos sistemas depressionários. Este desbloqueio permite uma alteração do regime atmosférico dominante no Atlântico Norte, com impacto direto no território continental.
Uma transição que nem sempre significa sol duradouro
O anticiclone dos Açores é habitualmente associado a tempo seco, céu pouco nublado e maior estabilidade atmosférica. No entanto, essa leitura nem sempre se confirma de forma linear. A atual transição aponta para uma mudança do regime NAO negativo, caracterizado por baixas pressões a sul, para um regime NAO positivo, em que as altas pressões tendem a reforçar-se entre os Açores e a Europa Ocidental.
Este reposicionamento empurra a corrente de jato e as principais depressões para latitudes mais a norte, reduzindo a frequência de frentes atlânticas a atingir Portugal. Segundo a mesma fonte, os modelos de previsão apontam para uma diminuição acentuada da chuva entre os dias 15 e 25 de fevereiro, sobretudo nas regiões a sul do país, embora o Norte possa ainda ser afetado por alguma precipitação residual.
Apesar disso, os sinais não indicam um período completamente seco nem uma estabilização prolongada. A variabilidade atmosférica deverá manter-se, com alternância entre dias mais soalheiros e outros com alguma instabilidade, especialmente nas regiões setentrionais.
Um padrão atmosférico ainda frágil
A fragilidade desta transição está relacionada com o estado atual do vórtice polar e com o comportamento da corrente de jato, que continua a apresentar ondulações acentuadas. Este padrão favorece mudanças rápidas no estado do tempo, com oscilações térmicas e episódios pontuais de precipitação.
Nesse contexto, poderão surgir dias mais amenos, seguidos de entradas de ar mais frio de origem marítima, capazes de provocar descidas temporárias da temperatura e, em zonas de maior altitude, a possibilidade de queda de neve. Os cenários de médio prazo não sustentam, para já, a instalação de um bloqueio anticiclónico duradouro.
Alguns modelos admitem hipóteses alternativas, como um período mais seco e quente até ao final de fevereiro ou, pelo contrário, um regime de leste mais frio e igualmente seco. No entanto, essas soluções não reúnem consenso suficiente para serem consideradas dominantes.
Atenção mantém-se sobre rios e solos saturados
Apesar da esperada redução da precipitação, a situação hidrológica continua a justificar acompanhamento. Os níveis elevados das principais bacias hidrográficas e a saturação dos solos aumentam a sensibilidade do território a qualquer novo episódio de chuva, mesmo que de curta duração.
Segundo o Luso Meteo, esta vigilância deverá manter-se nas próximas semanas, uma vez que a normalização dos caudais será lenta e dependente da persistência do tempo seco. A possibilidade de um novo período mais instável no início de março não está excluída, caso o Atlântico volte a assumir um comportamento mais ciclónico.
O regresso do anticiclone dos Açores marca, assim, uma pausa relevante após semanas de instabilidade, mas não representa ainda um fim definitivo do inverno meteorológico. A evolução do padrão atmosférico continuará a exigir atenção, num período do ano em que as mudanças rápidas permanecem frequentes.
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