Pode parecer uma oportunidade inofensiva para ganhar algum dinheiro extra, mas esconde um risco sério. O chamado “money muling” é um esquema de fraude financeira em expansão que está a apanhar milhares de pessoas desprevenidas, muitas delas sem consciência de que estão a participar num crime.
Em causa está a utilização da conta bancária de um particular para movimentar dinheiro de origem ilícita, normalmente a pedido de terceiros. Quem aceita esse papel passa a ser conhecido como “money mule”, ou mula de dinheiro, funcionando como intermediário num circuito de branqueamento de capitais.
De acordo com o site Saldo Positivo, da Caixa Geral de Depósitos, mesmo que o termo ainda não seja familiar para muitos clientes bancários, o risco é real e crescente, sobretudo entre jovens, estudantes e pessoas em situações financeiras mais frágeis.
Um esquema que começa com promessas simples
Segundo explica o Saldo Positivo, o recrutamento para esquemas de money muling acontece frequentemente através de redes sociais, plataformas de emprego, mensagens de correio eletrónico ou até contactos presenciais. As abordagens são, em regra, cuidadosas e adaptadas ao perfil da vítima.
As propostas surgem sob a forma de trabalhos remotos, oportunidades de rendimento rápido ou supostas parcerias comerciais. A mensagem é quase sempre a mesma: receber dinheiro na conta bancária, ficar com uma comissão e reenviar o restante para outra conta.
O problema é que esse dinheiro tem, na maioria dos casos, origem criminosa.
Como funciona o circuito do dinheiro
O esquema segue um padrão relativamente simples. Primeiro, a vítima é convencida de que não está a fazer nada de ilegal. Em alguns casos, é-lhe pedido que forneça os dados da sua conta bancária. Noutros, é incentivada a abrir uma nova conta exclusivamente para esse fim.
Depois, o dinheiro é transferido para essa conta e rapidamente reenviado para terceiros, muitas vezes no estrangeiro, ou através de mecanismos difíceis de rastrear, como criptomoedas ou serviços de transferências instantâneas.
Quando as autoridades detetam o esquema, os verdadeiros responsáveis desaparecem. Quem fica identificado é o titular da conta utilizada nas transferências.
As consequências podem ser graves
Mesmo quando existe alegação de desconhecimento da origem ilícita dos fundos, o envolvimento em money muling pode configurar crime de branqueamento de capitais. De acordo com o Saldo Positivo, este tipo de crime é punível com pena de prisão, independentemente de a pessoa ter agido com dolo direto ou por negligência.
Importa ainda sublinhar que há relatos de menores e jovens envolvidos sem plena consciência do que estão a fazer, nomeadamente através de plataformas de jogos online ou aplicações populares, onde o dinheiro circula rapidamente e com pouca perceção de risco.
Estes esquemas estão frequentemente associados a redes criminosas ligadas a fraudes online, usurpação de identidade, tráfico de pessoas ou cibercrime.
Campanhas de alerta a nível internacional
A gravidade do fenómeno levou a uma resposta concertada a nível internacional. Em 2022, a Interpol, em colaboração com autoridades de 34 países, incluindo Portugal, lançou uma campanha global de sensibilização sob o lema “A tua conta, o teu crime”.
De acordo com a mesma entidade, a mensagem é clara: cada titular de conta bancária é responsável pela forma como esta é utilizada, independentemente de quem peça ou incentive as transferências.
Como se proteger
As entidades bancárias aconselham a desconfiar de qualquer pedido para utilizar a sua conta bancária em nome de terceiros, sobretudo quando envolve promessas de dinheiro fácil ou comissões rápidas. Nenhuma atividade legítima exige que um particular sirva de intermediário financeiro sem contrato formal e enquadramento legal claro.
Sempre que surja uma dúvida, o aconselhável é contactar o banco ou as autoridades antes de realizar qualquer operação. No caso do money muling, o desconhecimento não protege de consequências legais.
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