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Nacional

Portugal é criminoso quando diz a um afegão que só pode trazer uma das esposas? “É um homicídio deixá-las para trás”

O ministro da Defesa deixou claro que os afegãos que vêm para Portugal apenas “têm o direito de trazer uma esposa, no caso de haver mais do que uma”. Mas é possível que as sociedades ocidentais – e laicas – se mostrem tão preocupadas com os direitos das mulheres no Afeganistão e deixem para trás todas aquelas que não encaixam num modelo de casamento trancado na união entre duas pessoas? Paulo Mendes Pinto, perito em História das Religiões, explica que as preteridas pelos maridos “serão literalmente repudiadas” porque, na visão da sociedade afegã, “uma mulher sozinha com filhos ou é viúva ou não existe”

12:28 1 Setembro, 2021
Cristina MendonçaCristina MendonçaJornalista
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Faranaz Keshavjee, especialista em Estudos Islâmicos, afirma que “estamos perante um paradoxo”: “por um lado criticamos os homens afegãos porque tratam mal as mulheres, mas por outro exigimos-lhes que as abandonem se quiserem vir para cá”. A antropóloga esclarece que a poligamia – ou melhor, a poliginia – “não se trata de um fétiche sexual” dos muçulmanos e “serve para proteger justamente as mulheres”

“Se existir uma próxima Guerra Mundial, ela será travada entre civilizações”. A frase pertence a Samuel Huntington, autor de “O Choque de Civilizações”, teoria originalmente publicada em 1993 num artigo da revista ‘Foreign Affairs’ e expandida três anos depois no livro com o mesmo nome. É isso a que assistimos atualmente. Após a implosão e a queda do bloco soviético, os Estados Unidos e o modelo capitalista pareciam tornar-se hegemónicos, mas uma nova tensão manteve o xadrez geopolítico polarizado, dividido por uma outra cortina de ferro entre o Ocidente e o Oriente.

A ameaça desta bomba-relógio, acionada pela incompreensão e a intolerância entre modelos de sociedade radicalmente antagónicos, está mais presente do que nunca, reaquecida com a recente crise política e humanitária no Afeganistão, onde os jogos de poder e de influência deixam sempre a perder uma população historicamente condenada à miséria e à escassez de tudo.

Na passada semana, dois dias antes da chegada do primeiro grupo de afegãos a Portugal, o ministro da Defesa deixou bem claro que os tradutores e intérpretes que colaboraram com as forças nacionais e da NATO “têm o direito de trazer uma esposa, no caso de haver mais do que uma, como acontece por vezes”. Depois, em entrevista à SIC Notícias, João Gomes Cravinho, quando questionado se admitia rever essa posição, desvalorizou o assunto com um “não” taxativo. “Essa é uma questão perfeitamente secundária no quadro da emergência com o qual estamos a lidar. Para o caso, não tem nenhum tipo de relevância, porque não foi uma questão colocada por nenhum dos 22 que trabalharam com Portugal. É uma questão puramente filosófica e teórica”, disse o governante.

Por enquanto nenhuma das famílias afegãs que chegou a Portugal é poligâmica e este parece ser um cenário meramente hipotético, mas muitos mais refugiados vão chegar em catadupa e com eles podem trazer algumas interrogações morais e éticas para a bagagem cultural portuguesa. Ser justo perante uma crise humanitária é aplicar a Justiça de um país a quem nenhum crime cometeu aos olhos de uma outra lei à qual sempre esteve subordinado? É possível a sociedade ocidental mostrar-se tão preocupada com os direitos das mulheres no Afeganistão e simultaneamente trancar a porta a famílias poligâmicas, deixando para trás várias afegãs? É mais urgente salvar vidas humanas ou moldar a existência de outros ao modelo que vigora em sociedades ditas inclusivas, em que o próprio conceito de casamento se foi adaptando e já pode ser assinado entre pessoas do mesmo sexo?

Quem concorda com a posição do Governo é o sheik David Munir. “Quem vai para um país que não é islâmico — com as suas regras e uma delas é praticar a monogamia de acordo com a lei civil —, tem de respeitar essas normas. É tão simples como isso”, afirma o imã da Mesquita Central de Lisboa ao Expresso. “Se concordaram vir para Portugal, têm de saber de antemão que a lei só permite ter uma esposa”, insiste o conselheiro religioso da Comunidade Islâmica de Lisboa, afiançando que “a maioria dos muçulmanos portugueses só têm uma esposa”. Até porque no Islão, descreve David Munir, “o que acontece, regra geral, é o homem ter só uma uma mulher”.

Sheik David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa e conselheiro religioso da Comunidade Islâmica de Lisboa

Sheik David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa e conselheiro religioso da Comunidade Islâmica de Lisboa. Foto D.R.

A poligamia não é uma prática historicamente associada exclusivamente ao islamismo. O Antigo Testamento está pejado de vários exemplos na tradição judaico-cristã. Desde logo, o livro de Génesis conta que Abraão, patriarca das três grandes religiões monoteístas, teve três esposas. Mais tarde, no tempo da monarquia israelita, as escrituras narram que o rei David foi casado com oito mulheres, um número bastante abaixo das 700 esposas e 300 concubinas do rei Salomão.

Num passado mais recente, também o Terceiro Reich promoveu o “matrimónio de emergência nacional” na Alemanha, quando a propaganda nazi incutiu a poligamia na Juventude Hitleriana como algo “desejável” para potenciar a reprodução eugénica (processo que visa aprimorar a genética humana) da raça ariana.

Das três religiões abraâmicas, apenas o Islão continua a permitir atualmente a poligamia, à semelhança da própria vida de Maomé. “O profeta casou aos 25 anos com uma mulher de 40 que era viúva. Foi essa mulher que lhe deu quatro filhos e foi ela a primeira pessoa a aceitar o Islão. No entanto, quando Maomé emigrou de Meca para Medina — uma cidade onde havia muita rivalidade tribal — casou com outras mulheres viúvas e divorciadas para criar união entre os clãs. O profeta também casou com Aisha, a mais nova das suas esposas. Há quem diga que tinha 13 ou 14 anos quando casou, mas só mais tarde é que foi viver com o profeta. Isso era algo comum no passado, em todas as sociedades, e não era encarado como violação”, enquadra o imã da Mesquita Central de Lisboa.

O termo mais correto, na verdade, é poliginia, uma vez que apenas os homens podem ter várias esposas, no máximo quatro, mas às mulheres é proibido ter mais do que um marido. “Num tempo anterior ao Islão, a poligamia era uma prática comum, em que os homens podiam ter várias esposas. O que o Corão fez foi disciplinar e dar abertura para que um homem seja casado com mais do que uma mulher, mas isso é uma exceção pensada para proteger as mulheres indefesas num contexto social que lhes era hostil”, defende David Munir.

“Há 1443 anos, quando o Corão foi revelado, havia muitas órfãs e viúvas numa sociedade em que as guerras eram constantes. Para que ninguém se aproveitasse da fragilidade em que essas mulheres se encontravam, se algum homem casado se interessasse por elas e tivesse possibilidades financeiras para as sustentar, então deveria casar com elas, tratá-las de forma justa e igualitária”, explica David Munir.

Na prática, desmistifica o ministro de culto, “cada esposa tem o seu espaço e deve receber do marido exatamente o mesmo que as restantes; se um homem oferecer um carro à primeira mulher tem de dar outro à segunda”. Todavia, recomenda o Corão, “se receais não conseguir manter a justiça entre elas, então ficai só com uma”. Assim sendo, o facto de o Islão aceitar a poliginia não quer dizer que a aconselhe, como demonstram vários versículos corânicos.

“Não podereis, jamais, ser equitativos com as vossas esposas, ainda que nisso vos empenheis.” (4:129)”

A antropóloga Faranaz Keshavjee não tem dúvidas sobre como avaliar a regra para já imposta em Portugal: “Estamos perante um paradoxo”. Porquê? “Por um lado criticamos os homens afegãos porque tratam mal as mulheres, mas por outro exigimos-lhes que as abandonem se quiserem vir para cá. Ou seja, estamos a dizer-lhes: ‘Percebemos as vossas ideias, mas tratem lá disso de uma forma errada, porque nós cá só temos lugar para uma mulher’”.

O problema, sugere a especialista em Estudos Islâmicos e em Psicologia Social, é que “Portugal proclama-se um estado laico, mas não é assim tão preto no branco e está inundado pela presença religiosa”. Por outras palavras, as de Faranaz Keshavjee, “a laicidade existe formalmente, mas informalmente existe uma proximidade muito grande entre o Estado e o catolicismo”.

Ao Expresso, a antropóloga manifesta “toda a consideração pelo trabalho que o Governo tem estado a fazer”, mas adverte que não se pode achar que a nossa sociedade é dona da “ética e da moral”, até porque, enfatiza, “a história de Portugal é o produto de uma miscigenação cultural e durante 800 anos este território foi governado por muçulmanos”. “Embora não falemos muito dessa herança que está presente nos nomes, no idioma, na música e em várias tradições”, nota.

Faranaz Keshavjee, especialista em Estudos Islâmicos e antropóloga

Faranaz Keshavjee, especialista em Estudos Islâmicos e antropóloga. Foto Ana Baião D.R.

Faranaz Keshavjee identifica “uma hipocrisia no Ocidente quando se fala de valores éticos e morais, achando que os seus princípios são superiores aos dos muçulmanos”. Mas aquilo que o Islão fez ao permitir a poliginia, sustenta, “serve para proteger justamente as mulheres”. Contudo, “a tendência para esta estereotipia social é muito resistente à mudança” e “as sociedades ocidentais olham sempre para o Islão como quem olha para um jardim zoológico, onde só há irracionalidade e os Direitos Humanos não existem”, observa Faranaz Keshavjee, para quem “são estas ideias que compõem aquilo que é a islamofobia”, uma “reação de nojo por uma forma diferente de ver o mundo”.

Este preconceito em relação ao islamismo, prossegue, “demonstra desconhecimento, falta de consideração total pela visão dos outros e até, mais do que tudo, falta de humanidade”. É por isso que advoga ser fundamental deixar claro que a poliginia “não se trata de um fetish sexual” dos muçulmanos, de forma a combater uma “narrativa que exotiza as mulheres islâmicas e que torna selvagens todos os homens que não são brancos”, na qual “os superiores consideram que os inferiores nem sequer das suas mulheres sabem tratar devidamente”.

AS MULHERES NO AFEGANISTÃO: PEQUENOS PEÕES NO GRANDE JOGO

A perita em Estudos Islâmicos distingue as práticas culturais do Islão dos costumes ancestrais enraizados no povo afegão, ainda mais desamparado desde que o território se tornou numa peça-chave do Grande Jogo entre dois impérios. “É uma sociedade que ficou muito atrasada do ponto de vista da evolução mais progressista e liberal em virtude das várias guerras que sofreu desde 1803, quando britânicos e russos se digladiavam por causa daquele território estratégico e decidiram inclusivamente separar uma zona que era comum”, evidencia Faranaz Keshavjee.

As feridas históricas continuam abertas e, de acordo com o diagnóstico da especialista, fazem com que ainda hoje “muitas mulheres afegãs, por força da extrema miséria das suas famílias, sejam vendidas ainda na infância ou dadas a casar em troca de alguns valores materiais”. Isso leva a que, “desde a sua origem, sejam mulheres completamente fragilizadas e desprovidas de qualquer tipo de recursos”, constata a antropóloga.

Posto isto, desagregar famílias poligâmicas e fechar a porta de entrada a várias mulheres — apenas por não serem a única esposa que o marido pode escolher trazer quando foge da opressão dos talibãs —, “no fundo é um homicídio”. Na prática, estas mulheres ficam “para trás em condições de extrema precariedade e pobreza”, sentencia Faranaz Keshavjee.

“UMA MULHER SOZINHA, COM FILHOS, OU É VIÚVA OU NÃO EXISTE”

“O que acontecerá às mulheres que não possam vir e que fiquem no Afeganistão?” A pergunta é feita por Paulo Mendes Pinto, especialista em História das Religiões também ouvido pelo Expresso, que imediatamente aponta a resposta. “Naquele contexto, as mulheres que não forem escolhidas pelo marido serão literalmente repudiadas — de acordo com a sharia, é isso que acontece — e isso é uma mácula terrível para elas. E, depois, como é que uma dessas mulheres se vai conseguir sustentar e sobreviver naquela sociedade?”

No limite, indica, “uma mulher repudiada é ostracizada por toda a sociedade, porque, mesmo que não tenha culpa nenhuma, foi preterida em função de outra”. Aí só terá duas saídas. “Ou terá a possibilidade de regressar com os filhos para casa do pai, se tiver a sorte de ser aceite, ou então fica na rua”, desvela o coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

Sion Touhig / Getty Images. Foto D.R.

“A sociedade afegã não concebe essa realidade. Uma mulher sozinha, com filhos, ou é viúva ou não existe”, assevera Paulo Mendes Pinto. O investigador e académico de 50 anos aclara que “na esmagadora maioria do mundo islâmico a estrutura familiar é igualzinha à nossa” e “em sociedades que se sedentarizaram há muitos séculos, a poligamia é raríssima”, sendo mais comum “em meios islâmicos de origem tribal, como a Arábia Saudita ou o Afeganistão”.

Terminando pelo início, este choque civilizacional “confronta as nossas tradições, a nossa moral, o nosso conceito de família e o próprio ordenamento legal”, reconhece o especialista em História das Religiões, concluindo que “humanitariamente esta questão terá de ser mais trabalhada”, até porque, “no Ocidente, o poliamor é algo de que já se começa a falar e, inevitavelmente, os textos legais terão de evoluir mais tarde ou mais cedo para o enquadrar de alguma forma”.

Notícia exclusiva do nosso parceiro Expresso

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