O uso generalizado de raticidas em Portugal está a ter um impacto profundo e preocupante na vida selvagem. Especialistas confirmaram que quase todos os animais de várias espécies de aves de rapina apresentam sinais de contaminação. Um estudo científico revela que a exposição a estes químicos já não é pontual, mas um fenómeno persistente que afeta grande parte do território nacional, segundo o portal Meteored.
A conclusão resulta de uma investigação conduzida por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em parceria com a Universidade de Gran Canaria. O trabalho analisou o impacto dos raticidas anticoagulantes em aves de rapina, substâncias amplamente usadas no controlo de pragas de roedores, sobretudo em zonas rurais.
Os resultados são claros. Mais de 80% dos animais analisados apresentavam contaminação por raticidas, um valor que os investigadores classificam como alarmante. Em várias espécies, a percentagem ultrapassa os 90%, levantando sérias preocupações quanto à sobrevivência a médio e longo prazo.
Espécies entre as mais afetadas
Entre as aves mais expostas encontram-se o bufo-real, o peneireiro-de-dorso-malhado e a coruja-do-mato. Em todas estas espécies, os níveis de contaminação atingiram valores próximos ou superiores a 90%, segundo os dados recolhidos.
O estudo incidiu sobre 210 aves de 15 espécies diferentes, recolhidas entre 2017 e 2024 em centros de recuperação de animais selvagens no Continente e na Região Autónoma da Madeira. A maioria dos indivíduos analisados tinha resíduos de raticidas no fígado, sinal de envenenamento secundário, refere a mesma fonte.
Este tipo de envenenamento ocorre quando predadores consomem presas que ingeriram previamente os tóxicos usados no combate a roedores. Ao entrarem na cadeia alimentar, estas substâncias acabam por atingir espécies que não são alvo direto do controlo de pragas.
Estudo inédito em Portugal
Do total de aves analisadas, 83% apresentavam vestígios de pelo menos um raticida anticoagulante. Em quase 60% dos casos positivos, foram detetados dois ou mais compostos em simultâneo, aumentando o risco de efeitos cumulativos e potencialmente fatais.
Embora estudos semelhantes existam noutros países europeus, este é o primeiro trabalho de monitorização deste género realizado em Portugal, abrangendo tanto o Continente como a Madeira, segundo os investigadores envolvidos.
Os dados revelam ainda diferenças significativas entre regiões. Na Madeira, a situação é descrita como particularmente grave, com quase 90% destes animais a apresentarem contaminação múltipla. As concentrações médias detetadas foram superiores às registadas no Continente, o que sugere um uso mais intensivo de raticidas no controlo de pragas em contexto insular.
Substâncias tóxicas e efeitos prolongados
De acordo com a mesma fonte, entre os compostos identificados destacam-se o brodifacoum e a bromadiolona, raticidas altamente persistentes e tóxicos. Estes químicos provocam hemorragias internas ao impedir a coagulação do sangue e permanecem nos tecidos durante longos períodos.
A acumulação ao longo do tempo explica porque as aves mais velhas apresentam, em média, concentrações mais elevadas. Mesmo quando não provocam a morte imediata, estes compostos causam efeitos graves, como fraqueza, perda de coordenação e redução da capacidade de caça.
Segundo os investigadores, doses subletais podem ainda aumentar o risco de colisões, dificultar a reprodução e fragilizar populações que já enfrentam outras ameaças ambientais.
Espécies sentinela e alertas dos especialistas
Segundo o Meteored, os biólogos envolvidos no estudo defendem que espécies comuns e amplamente distribuídas, como o peneireiro-de-dorso-malhado e a coruja-das-torres, podem funcionar como espécies sentinela para acompanhar a evolução da contaminação em Portugal.
“Estes resultados demonstram que os raticidas utilizados no controlo de pragas de roedores estão a entrar nas cadeias alimentares da fauna selvagem, o que coloca estas espécies em risco e exige medidas de mitigação para reduzir os impactos”, afirmou Sofia Gabriel, coordenadora do estudo e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais.
O estudo confirma que o impacto dos raticidas é transversal e prolongado no tempo, afetando várias gerações de aves. Esta pressão adicional pode comprometer o equilíbrio dos ecossistemas, sobretudo se espécies-chave diminuírem drasticamente ou desaparecerem de determinadas regiões.
Perante este cenário, os autores defendem a adoção de medidas urgentes, incluindo a monitorização regular, a limitação do uso indiscriminado de raticidas, a promoção de alternativas mais seguras no controlo de roedores e ações de sensibilização junto das populações, de forma a reduzir os riscos para a biodiversidade em Portugal.
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