Entre o vapor do solo e o silêncio das caldeiras, há um ritual gastronómico que define um dos pratos mais emblemáticos dos Açores. O Cozido das Furnas, cozinhado exclusivamente com o calor natural da terra, dispensa forno, fogão ou sequer a adição de água, e é um exemplo da profunda ligação entre a geologia e a tradição culinária da ilha de São Miguel.
De acordo com o site do operador turístico iGoAzores, este prato é preparado em buracos escavados junto às caldeiras das Furnas, onde o calor geotérmico atinge temperaturas suficientes para cozinhar lentamente uma combinação de carnes, legumes e enchidos. A cozedura prolongada, durante seis a sete horas, garante sabores intensos e uma textura característica.
Origem vulcânica e receita centenária
Este prato é uma variação do tradicional cozido português, mas adaptado às especificidades do solo açoriano.
Segundo a mesma fonte, a receita não segue uma fórmula única: cada família açoriana tem a sua versão, mas há elementos constantes. Batata da terra, batata-doce, inhame, cenoura, couve, carne de vaca, porco, galinha, chouriço e morcela são os ingredientes mais comuns.
A preparação começa com o forrar da panela com folhas de repolho, colocando depois as carnes e, por camadas, os legumes. Os enchidos são envolvidos em papel de alumínio e posicionados no topo. A panela é selada, embrulhada num pano espesso e colocada num buraco previamente escavado e identificado no terreno vulcânico.
O momento de enterra e de esperar
O momento de enterrar o cozido é acompanhado por um funcionário do parque das Caldeiras, após o pagamento de uma taxa simbólica. O ritual atrai não apenas locais, mas também visitantes curiosos com a experiência de participar numa tradição centenária.
Quanto ao tempo da cozedura, tudo depende da preferência de cada um. Quem deseja um prato mais suculento opta pelas sete horas completas. Para almoços às 13 h, o ideal é enterrar a panela por volta das 6 h da manhã. O mesmo se aplica a jantares, com o procedimento a iniciar-se ao início da tarde.
Sabores que não se repetem fora de São Miguel
Segundo a empresa de turismo Azores Adventures Futurismo, o segredo do sabor do Cozido das Furnas está na cozedura sem água, numa panela selada, onde o vapor dos ingredientes e a humidade do solo garantem o ponto certo de cada elemento. O resultado é um prato aromático, com os sabores da carne e dos legumes naturalmente intensificados.
Esta ligação entre gastronomia e geologia é rara. O método de confeção influencia o perfil gustativo do prato, com notas terrosas e minerais que não se encontram em mais nenhum tipo de cozido. O calor das caldeiras atua de forma constante e lenta, promovendo uma fusão gradual dos ingredientes.
Mais do que uma refeição, uma vivência
O Cozido das Furnas representa uma experiência imersiva na cultura açoriana. Além do processo culinário, há todo um enquadramento social e familiar.
Acrescenta a publicação que o prato é frequentemente partilhado entre famílias ou grupos de amigos, acompanhado por vinhos locais encorpados, e serve como pretexto para momentos de convívio.
A ligação com a natureza, a tradição transmitida de geração em geração e a envolvência do cenário das Furnas fazem do Cozido um ícone cultural tanto quanto gastronómico.
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