Quando a chuva cai durante horas seguidas e os avisos de precipitação forte se sucedem, o risco deixa de ser apenas apanhar uma molha à porta de casa. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) recorda que as cheias e inundações urbanas estão entre os fenómenos naturais que mais danos provocam em Portugal, sobretudo quando os sistemas de drenagem estão obstruídos ou as construções se encontram em zonas baixas.
As recomendações de proteção civil e das seguradoras convergem num ponto: grande parte dos estragos mais comuns pode ser mitigada com prevenção simples, feita antes da chuva extrema. Limpar caleiras e ralos, proteger portas ao nível da rua, rever o que está guardado em garagens e escolher bem o sítio onde fica o carro são alguns dos cuidados apontados em avisos recentes da ANEPC e em guias de boas práticas divulgados por autarquias e juntas de freguesia.
Também do lado financeiro, a mensagem é clara. A DECO PROTeste sublinha que, perante tempestades e inundações, só quem tem coberturas adequadas no seguro multirriscos-habitação e no seguro automóvel facultativo consegue garantir proteção para o imóvel, o recheio e o veículo, evitando surpresas na hora de acionar a apólice.
Antes da tempestade: preparar a casa para a água que vem aí
Nas fases de aviso de mau tempo, a prioridade passa por garantir que a água consegue escoar sem obstáculos. A ANEPC recomenda que sejam limpos e desobstruídos sumidouros, valetas, sarjetas, caleiras e algerozes, tanto nos telhados como em varandas, quintais e logradouros, removendo folhas, terra e outros detritos que se foram acumulando. Esta verificação deve ser feita também em grelhas de escoamento no interior de pátios ou terraços, onde brinquedos, vasos ou mobiliário de exterior podem acabar a bloquear a passagem da água.
Outro ponto sensível são as portas e janelas ao nível da rua. Vários avisos de proteção civil e manuais municipais de autoproteção sugerem, para casas em zonas mais expostas, o recurso a pequenas barreiras físicas, como painéis de madeira adaptados ao vão da porta ou sacos de areia junto a soleiras, de forma a retardar a entrada de água. Sempre que possível, recomenda-se ainda uma observação rápida do estado do telhado, caixilharias e fissuras em paredes exteriores, para detetar pontos de infiltração óbvia antes de a chuva apertar.
Dentro de casa, a prevenção passa por afastar do chão tapetes, eletrodomésticos de pequeno porte e caixas com documentos ou objetos de valor, sobretudo em divisões térreas mais próximas do exterior.
Garagens e caves: pontos críticos em cheias súbitas
Em episódios de chuva muito intensa, garagens subterrâneas e caves são frequentemente as primeiras a encher. O aconselhado é manter sempre limpos os ralos de pavimento, as caleiras no fundo das rampas e quaisquer caixas de visita associadas ao sistema de drenagem, reduzindo a probabilidade de acumulação rápida de água.
A forma como se organizam os bens nestes espaços também faz diferença. Em vez de armazenar equipamentos, ferramentas ou caixas diretamente no chão, é preferível utilizar prateleiras metálicas, estrados ou paletes que elevem os objetos alguns centímetros. Este cuidado, apontado em campanhas municipais ligadas ao início do ano hidrológico, pode ser suficiente para evitar que cheias pouco profundas destruam eletrodomésticos ou documentação.
Se a água começa a subir de forma visível, as orientações de proteção civil são claras: não permanecer em caves nem tentar salvar bens à última hora. A prioridade é abandonar rapidamente espaços enterrados, passar a pisos superiores e, apenas se for seguro, desligar a energia elétrica e o gás, recorrendo depois a apoio técnico.
Onde deixar o carro quando a rua se transforma em rio
Os veículos estão entre os bens mais expostos em episódios de chuva extrema. As autoridades de proteção civil lembram a necessidade de evitar estacionar em zonas historicamente sujeitas a cheias, como proximidades de ribeiras, fundos de vale ou arruamentos com fraca drenagem.
Para quem não dispõe de garagem, a orientação passa por procurar sempre locais ligeiramente mais elevados e afastados de linhas de água, mesmo que isso implique alguns minutos adicionais de caminhada. Na prática, a escolha do lugar de estacionamento pode mesmo ditar a diferença entre um carro intacto e uma viatura com perda total, sobretudo em ruas que enchem depressa quando chove muito.
Em circulação, a regra é não entrar em zonas onde a altura da água seja difícil de avaliar. A ANEPC recomenda uma condução defensiva, com redução de velocidade e atenção à formação de lençóis de água, alertando para o perigo de atravessar arruamentos inundados, devido ao risco de arrastamento da viatura para buracos no pavimento ou caixas de esgoto destapadas. As recomendações de segurança rodoviária indicam que, sempre que a água ultrapassa de forma clara o nível dos pneus, a circulação deixa de ser segura e aumenta a probabilidade de danos mecânicos graves.
Após a inundação: segurança, provas e contacto com o seguro
Quando, apesar de todos os cuidados, a água entra em casa, na garagem ou no carro, o primeiro passo continua a ser a segurança. As entidades de proteção civil e as seguradoras recomendam evitar o contacto com tomadas, quadros elétricos e cabos molhados, não circular descalço em zonas inundadas e apenas ligar novamente a energia após avaliação por técnico qualificado.
Num segundo momento, torna-se essencial registar o que aconteceu. A DECO PROTeste e vários operadores de seguros aconselham a tirar fotografias e vídeos aos danos, a guardar comprovativos de intervenções de bombeiros ou proteção civil e a anotar datas e horas em que se verificaram os acontecimentos. Seguradoras sugerem que, sempre que possível, estes elementos sejam enviados logo na participação do sinistro, facilitando a análise e a regularização do processo.
A participação deve ser feita dentro dos prazos indicados na apólice, através das linhas de apoio, área de cliente ou aplicação móvel. Em situações de cheias com grande impacto, a Associação Portuguesa de Seguradores divulga habitualmente contactos e canais prioritários para abertura de sinistros, precisamente para agilizar o atendimento.
Que coberturas de seguro podem fazer a diferença
A experiência recente com episódios de chuva extrema levou a que muitas famílias revissem as coberturas dos seus seguros. A DECO PROTeste tem insistido que fenómenos como inundações, tempestades e cheias só ficam efetivamente protegidos se estiverem incluídos no seguro multirriscos-habitação, idealmente com salvaguarda clara tanto do edifício como do recheio.
No automóvel, a regra é semelhante. As apólices de responsabilidade civil obrigatória não cobrem danos na própria viatura, sendo necessário contratar coberturas facultativas, como danos próprios com fenómenos da natureza, para ter proteção em caso de submersão parcial ou total em água doce. Comparar propostas, verificar capitais seguros e exclusões e ponderar franquias são passos recomendados por associações de consumidores e plataformas especializadas em seguros, sobretudo em zonas onde as cheias urbanas se tornaram mais frequentes.
Perante uma sucessão de períodos de chuva intensa, a combinação entre prevenção física da casa, organização das garagens e caves, escolha cuidada do lugar onde se deixa o carro e apólices ajustadas ao risco pode reduzir significativamente o impacto de um dia de “chuva em força” na vida quotidiana.
Leia também: Tempestade intensa aproxima-se de Portugal e estas regiões vão ser as mais ‘castigadas’
















