Durante séculos, foi tratada como um tesouro reservado apenas aos imperadores. Hoje, esta casca de fruta atinge valores dignos de uma joia rara, sendo vendida por milhares de euros o quilo. Trata-se da casca desidratada de mandarina de Xinhui, na China, conhecida como “chenpi”, que se tornou um produto de luxo com enorme procura.
De tradição imperial a artigo de luxo
A valorização da casca desta fruta tem surpreendido até os próprios chineses, segundo aponta o portal espanhol Huffpost. Em alguns casos, as cascas são leiloadas, e quanto mais antigas, maior é o preço. Existem exemplares que ultrapassam os 18 mil euros por quilo, tornando o “chenpi” num verdadeiro investimento para colecionadores e amantes da medicina tradicional.
Xinhui, um bairro histórico da cidade de Jiangmen, na província de Guangdong, é o berço deste produto. Há séculos que ali se aperfeiçoa a arte de secar as cascas de mandarina, num processo que exige paciência e precisão. Para os habitantes locais, o seu aroma é símbolo de prosperidade e bem-estar.
Um processo demorado e artesanal
O processo de produção é minucioso. As cascas são deixadas a secar ao sol durante, pelo menos, três anos, tempo suficiente para desenvolverem o seu sabor e propriedades únicas. Só após este período são consideradas de qualidade superior e prontas para uso medicinal ou gastronómico.
As variedades existentes diferem conforme o grau de maturação. As chamadas cascas verdes são colhidas antes de o fruto amadurecer totalmente, enquanto as vermelhas, as mais valiosas, são obtidas no pico da maturação, em dezembro.
A composição do solo e da água em Xinhui confere às mandarinas um aroma e uma textura que não se encontram noutras regiões. Essa singularidade explica em parte a fama e o elevado valor do produto.
Um privilégio reservado aos imperadores
Segundo antigos registos, as cascas “chenpi” eram consideradas tão preciosas que apenas o imperador e a imperatriz podiam consumi-las na Cidade Proibida. O seu uso era restrito, reservado a rituais e tratamentos de saúde.
Hoje, o “chenpi” tem múltiplas aplicações. É utilizado tanto na medicina tradicional chinesa como na culinária, sendo adicionado a sopas, chás e molhos. O seu sabor ligeiramente amargo e perfumado é apreciado por chefs e terapeutas naturais.
Propriedades com base científica
Do ponto de vista medicinal, acredita-se que a casca desta fruta favorece a digestão e alivia a indigestão, conhecida como dispepsia. Também é usado para melhorar a circulação e equilibrar a pressão arterial, sendo um ingrediente comum em infusões.
Os investigadores modernos começaram a analisar as suas propriedades. Estudos apontam que o “chenpi” é rico em óleos essenciais, flavonoides e fibras, o que lhe confere efeitos antivirais e antienvelhecimento.
Outras investigações indicam que possui compostos anti-inflamatórios capazes de reduzir a inflamação das vias respiratórias, sendo útil em casos de tosse ou congestão.
E em Portugal?
Em Portugal, o termo “mandarina” não é habitual no dia a dia. O fruto é conhecido sobretudo como tangerina, muito popular durante o outono e o inverno, quando enche bancas e fruteiras pelo país. Apesar da diferença no nome, trata-se do mesmo tipo de citrino, uma variedade do Citrus reticulata. A designação “mandarina” é mais usada em Espanha e na China, de onde provém o produto referido, mas o sabor, o aroma e a aparência são praticamente idênticos aos da tangerina portuguesa.
Algarve e Ribatejo em destaque
A tangerina é cultivada e consumida em praticamente todo o país, mas as regiões do Algarve e do Ribatejo destacam-se como as zonas onde é mais comum e apreciada.
No Algarve, o clima ameno e as longas horas de sol favorecem a produção de citrinos de excelente qualidade, especialmente em concelhos como Silves, Tavira e Faro, onde a tangerina é colhida entre novembro e fevereiro. Já no Ribatejo, as margens férteis do Tejo também proporcionam boas condições para o cultivo.
Antioxidante e aliado do intestino
Graças ao seu poder antioxidante, esta casca ajuda ainda a combater o stress oxidativo, um dos principais fatores do envelhecimento celular. Pode também auxiliar na regulação dos níveis de triglicéridos e na prevenção da obesidade.
Por último, e de acordo com o Huffpost, os especialistas acreditam que o “chenpi” contribui para o equilíbrio da microbiota intestinal, reforçando o sistema digestivo e a imunidade natural. Um luxo com sabor a tradição e benefícios que atravessam gerações.
















