A história do autoproclamado “Príncipe da Fuzeta” é uma das mais peculiares do Algarve. Figura envolta em reivindicações históricas e jurídicas, este homem alega ser o legítimo herdeiro de vastas terras no Algarve, adquirindo notoriedade ao longo dos anos, especialmente após a sua memorável entrevista com Herman José.
Quem é o “Príncipe da Fuzeta”?
Embora o título não tenha reconhecimento oficial, o homem que se autodenomina “Príncipe da Fuzeta” baseia a sua reivindicação num suposto direito senhorial concedido por Dona Maria I no século XVIII.
Segundo a sua versão, a sua família nunca perdeu legalmente a posse das terras, apenas a sua administração, e considera que a abolição da monarquia não teria anulado esses direitos.
A questão legal
O conceito de senhorios em Portugal remonta à Idade Média, quando a Coroa concedia terras a nobres e ordens militares, garantindo-lhes direitos administrativos e económicos sobre determinadas regiões.
No entanto, as reformas liberais do século XIX e, mais tarde, a instauração da República em 1910, aboliram os direitos nobiliárquicos.
A Lei da Abolição dos Morgadios (1863) eliminou a obrigatoriedade da transmissão hereditária de bens senhoriais, permitindo a sua divisão e alienação.
Com a proclamação da República, a Constituição de 1911 extinguiu formalmente todos os títulos nobiliárquicos e os privilégios associados a estes.
Assim, qualquer reivindicação baseada nesses direitos é considerada extinta do ponto de vista legal.
De acordo com José Mattoso em “História de Portugal: O Liberalismo”, a estrutura senhorial portuguesa foi completamente dissolvida com a implantação da República.
Os bens anteriormente pertencentes à nobreza foram incorporados ao património do Estado ou adquiridos por particulares.
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Consequentemente, qualquer alegação de continuidade de um direito senhorial carece de fundamento jurídico, uma vez que a legislação portuguesa do século XX consolidou a extinção definitiva desses títulos e privilégios.
A entrevista com Herman José
A notoriedade do “Príncipe da Fuzeta” aumentou significativamente quando participou no programa de Herman José.
A entrevista tornou-se icónica devido ao tom singular do convidado e às suas declarações, entre as quais se destacou a frase: “Os árabes nunca perdoaram o caso do Algarve”.
Durante a conversa, o entrevistado detalhou as suas teorias sobre a história da região, as ligações às casas reais europeias e a alegada ilegitimidade da apropriação das suas terras pelo Estado português.
O momento tornou-se um dos mais recordados da televisão portuguesa, tanto pelo conteúdo apresentado como pela interação entre Herman José e o convidado.
O ressurgimento da história no YouTube
Mais recentemente, o canal de YouTube “DE MOCHILA ÀS COSTAS” revisitou esta história, trazendo um olhar mais documental sobre o tema.
O vídeo acompanha uma visita à Fuzeta e inclui testemunhos de locais que relembram a figura do “Príncipe”, focando-se na forma como a história permaneceu na memória coletiva da região.
Em vez de uma análise legal aprofundada, o vídeo apresenta uma abordagem mais narrativa, explorando o impacto cultural e social da personagem no Algarve.
O conteúdo recupera imagens da famosa entrevista com Herman José, contextualizando a repercussão que o episódio teve na altura e o modo como a figura do “Príncipe da Fuzeta” continua a ser mencionada na atualidade.
Abaixo, pode explorar o vídeo mais recente do canal “DE MOCHILA ÀS COSTAS” com o “Príncipe da Fuzeta” e, de seguida, pode recordar a histórica entrevista com Herman José:
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