As ocupações ilegais continuam a inquietar proprietários em Portugal e Espanha, mas um caso recente em Valladolid mostrou como um simples pormenor pode ter sido decisivo para recuperar a casa ocupada: a presença de objetos pessoais no interior da casa.
O fenómeno das ocupações tem vindo a crescer de forma alarmante em Espanha, onde os números oficiais já ultrapassam as 16 mil ocorrências anuais. Só em 2024, registou-se um aumento de 7,4% face ao ano anterior, segundo o jornal La Razón. Em regiões como Castela e Leão, os processos judiciais relacionados com este crime dispararam mais de 130% no terceiro trimestre.
Em Portugal, embora a escala seja menor, há relatos crescentes de casos semelhantes, sobretudo em zonas urbanas com elevada procura habitacional. A preocupação tem-se acentuado entre quem possui segundas habitações, muitas vezes desocupadas durante boa parte do ano.
Um regresso de férias com surpresa desagradável
Foi precisamente o que aconteceu em Valladolid. Um casal regressou a casa, no bairro de Parque Alameda, e percebeu de imediato que algo estava errado: as chaves deixaram de abrir a porta. A fechadura fora substituída e o imóvel encontrava-se ocupado por estranhos.
Em vez de entrar em confronto, o casal contactou as autoridades e apresentou um elemento essencial para comprovar a posse e recuperar a casa, dentro do imóvel tinham permanecido documentos pessoais, correspondência e fotografias de família. Esse detalhe aparentemente banal acabou por ser a prova determinante para que a polícia confirmasse que se tratava da residência habitual dos proprietários.
A descoberta permitiu às autoridades ordenar o despejo imediato dos ocupantes e devolver a casa aos donos em menos de dois dias, evitando um processo judicial que poderia arrastar-se durante meses.
A lei espanhola e a janela de 48 horas
De acordo com a legislação espanhola, e segundo a mesma fonte, se for comprovado que o imóvel é residência principal e a ocupação ocorreu há menos de 48 horas, a polícia tem competência para atuar de imediato. Quando esse prazo é ultrapassado, a situação torna-se bem mais complexa e o caso segue para tribunal.
Em média, um processo judicial de despejo por ocupação ilegal pode demorar até dois anos a ser resolvido, tempo suficiente para causar prejuízos avultados e transtornos significativos aos proprietários, antes que sequer possam recuperar a casa.
Um aviso útil também para os portugueses
Este caso serve de alerta não apenas em Espanha, mas também em Portugal, onde é também aconselhável medidas simples para reforçar a segurança de casas desabitadas. Uma das mais eficazes é manter no interior alguns documentos pessoais, correspondência recente ou objetos de uso familiar que comprovem a ocupação legítima.
Além disso, a colaboração entre vizinhos tem-se revelado essencial. Comunicar movimentos estranhos, luzes acesas em horários anómalos ou trocas de fechaduras pode permitir uma intervenção rápida antes de a situação se consolidar.
O papel das novas tecnologias na proteção das habitações
Outro conselho frequente é investir em fechaduras inteligentes, câmaras de vigilância e alarmes ligados a centrais de monitorização. Estes sistemas não só alertam as autoridades em caso de intrusão, como também recolhem imagens que podem servir como prova em tribunal.
Em algumas cidades espanholas, associações de moradores criaram redes de alerta em tempo real, através de aplicações móveis, que notificam de imediato a polícia quando há suspeita de ocupação.
Repercussões no mercado imobiliário
As ocupações ilegais não afetam apenas os proprietários diretos. Segundo o La Razon, estima-se que mais de 20 mil casas estejam atualmente ocupadas em Espanha, o que representa cerca de 2,6% do parque habitacional do país. Este fenómeno provoca desconfiança nos investidores e trava o dinamismo do mercado de arrendamento.
Os compradores receiam adquirir imóveis vulneráveis a este tipo de crime e, consequentemente, o valor de certas propriedades tem vindo a descer em zonas consideradas de risco.
Um problema europeu em expansão
Portugal observa o caso espanhol com atenção. Embora o número de ocorrências seja inferior, há sinais preocupantes, especialmente em Lisboa, Porto e no Algarve, onde o valor do metro quadrado continua a subir.
Associações de proprietários têm defendido alterações legislativas que permitam uma resposta mais célere, evitando longos períodos de litígio e reduzindo o impacto económico destas situações.
No plano europeu, discute-se a criação de mecanismos comuns para proteger o direito à propriedade sem pôr em causa princípios fundamentais como a dignidade humana e o direito à habitação. No entanto, a morosidade dos processos judiciais continua a ser o principal entrave.
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