O momento da despedida de um ente querido é marcado por uma enorme vulnerabilidade emocional e financeira. Muitas famílias investem as suas poupanças na contratação de uma funerária para garantir um funeral digno com caixões de luxo e uma cerimónia respeitosa. Contudo, um esquema criminoso na hora da cremação sentou dezenas de arguidos no banco dos réus com um pedido histórico de anos de prisão.
O mistério em torno desta burla macabra dissipou-se quando se descobriu que as urnas dispendiosas eram substituídas por modelos económicos momentos antes da incineração final. O caso ocorreu no país vizinho e a informação é avançada pelo Jornal Sol, uma publicação semanal portuguesa de referência. O meio de comunicação relata como a polícia espanhola tropeçou neste arquivo criminoso de forma totalmente acidental.
A descoberta aconteceu quando as autoridades investigavam um funcionário por suspeitas de tentativa de extorsão ao seu próprio patrão. O trabalhador guardava na sua residência catorze rolos fotográficos, dezenas de vídeos e cadernos com os registos minuciosos de milhares de funerais intervencionados. Este acervo documental detalhava passo a passo a forma como o processo de fraude funcionava no interior das instalações.
O engano sonoro aos familiares
Indica a mesma fonte que o método de burla estava oleado para dissipar qualquer dúvida por parte das famílias enlutadas. Quando os parentes pediam para assistir ao momento da incineração, os funcionários introduziam o caixote de madeira no forno crematório. De seguida, ligavam os potentes ventiladores do equipamento para simular o som da combustão que nunca chegava a acontecer na realidade.
Com o ruído ensurdecedor das máquinas a trabalhar, os familiares despediam-se e abandonavam o local com a convicção de que o processo decorria com toda a normalidade. Após a saída dos clientes, os corpos eram retirados e transportados para o cemitério privado da empresa. Era neste espaço remoto que ocorria a verdadeira troca de urnas e a subsequente queima dos cadáveres.
Milhões de euros de lucro ilícito
O negócio manteve-se ativo e indetetável durante duas décadas, englobando o período temporal compreendido entre os anos de 1995 e 2015. As estimativas das autoridades judiciais apontam para a reciclagem fraudulenta de cerca de seis mil urnas funerárias. Esta impressionante quantia representa setenta e três por cento de todas as incinerações contratadas à agência naquele espaço de tempo.
Explica a referida fonte que o Ministério Público avalia os lucros desta rede criminosa em cerca de quatro milhões de euros. O esquema permitia que o mesmo artigo de alta gama fosse revendido e faturado a diversas famílias distintas. Em consequência das margens de lucro inflacionadas, os responsáveis conseguiram acumular uma fortuna considerável em dinheiro não declarado às finanças.
O império construído pelo fundador
O mentor de toda esta estrutura ilícita foi o empresário Ignácio Morchón Alonso, um homem que conseguiu dominar de forma hegemónica o mercado local de Valladolid. O líder da organização mantinha uma rede de informadores a quem pagava para receber avisos precoces a partir de hospitais e de lares de idosos. Esta vantagem competitiva desleal garantia que a sua equipa comercial era sempre a primeira a abordar as famílias fragilizadas pelas perdas recentes.
O empresário acabou por falecer há pouco mais de dois anos, quando as investigações já se encontravam numa fase avançada de recolha de provas. Devido ao seu óbito, o mentor do esquema nunca chegará a enfrentar a justiça nem a ouvir a sentença em tribunal. O peso da lei recaiu assim sobre os seus herdeiros diretos e sobre os colaboradores que executavam as ordens operacionais.
Penas pesadas e dinheiro escondido
O banco dos réus é agora ocupado pela viúva do fundador e pelos seus três filhos, enfrentando cada um deles um pedido de vinte anos de reclusão. A extensa lista de crimes inclui organização criminosa, falsificação de documentos, branqueamento de capitais e desrespeito pelos cadáveres. Dezanove funcionários que participavam ativamente na troca dos corpos também respondem perante o juiz espanhol encarregue do caso.
A dimensão da fraude tornou-se inegável durante as buscas realizadas pelas autoridades policiais a sete imóveis pertencentes à família em causa. Os agentes encontraram quase um milhão de euros em notas físicas, distribuídos e escondidos no interior de vulgares sacos de plástico. As fotografias apreendidas confirmaram também a total falta de dignidade no trato dos defuntos durante os processos de manipulação.
Explica ainda o Jornal Sol que o julgamento arrancou no início do mês de março do ano em curso com um total de vinte e três acusados. O escândalo gerou um volume avassalador de queixas individuais, obrigando a justiça a agrupar as vítimas para conseguir gerir o processo legal. O tribunal tem agora a responsabilidade de ouvir centenas de testemunhas antes de ditar o futuro desta rede organizada.
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