As depressões atmosféricas trazem nome de seres humanos, mas deixam atrás de si um rasto de desumanidade. Contemplando um combate a que as populações indefesas são alheias – entre as altas e as baixas pressões do ar – resta-lhes sofrer impotentes as consequências da instabilidade nos céus sob a forma de chuvas diluvianas e ventos fortes, que provocam inundações, deslizamentos de terra, destruição de infraestruturas energéticas e comunicacionais, redes básicas de água e saneamento, derrube de árvores de grande porte, revolta das ondas do mar. Mas, pior do que tudo isso, são as perdas de vidas humanas, os traumas de abandono à sua sorte dos que sobrevivem e ficam feridos na carne e na alma pela tortura por que passaram. Aquela sensação de ficar desnudo perante cada telha que voa, um pedaço da casa de abrigo que tantas vezes levou uma vida de sacrifícios a construir. São memórias familiares que se estilhaçam, lá se vão os retratos dos avós, dos filhos e dos netos, recordações de tempos de amor e trabalho. Um património irrecuperável, uma cicatriz incurável para o futuro. Sim, quem por isto passa não esquece, jamais esquecerá. Como o furacão Bhola cilindrou o Bangladesh em 1970, provocando 300.000 mortes. Como no Algarve ficou para a História o furacão de 15 de Fevereiro de 1941, e uma imensidão de prejuízos e mortes. Fábricas, produções agrícolas, locais de trabalho e postos de ganha-pão que se perdem, danos materiais que poderão levar anos a reerguer. E há todo um cenário inevitável de deslocamento de populações, situações de emergência, desorganização de serviços essenciais como a saúde, os transportes e as comunicações.
Já se desaprendeu como se vive sem electricidade, sem água canalizada, sem televisão e internet, sem estradas alcatroadas e pontes, sem supermercados à porta, e até sem centros de saúde em cada município. O progresso trouxe consigo uma enorme vulnerabilidade das populações, sobretudo as gerações mais jovens, crescidas com quase tudo o que os progenitores não tiveram. Existe uma similitude entre quem desespera indefeso sob o desabar da fúria dos céus, e uma família ucraniana que passa a noite sob bombardeamento ordenado pela malvadez de Putin. Naquele dia, em Kiev como em Leiria, sentiu-se uma mistura de emoções e sensações intensas, incluindo medo, ansiedade e insegurança. Experimentou-se pânico diante da ameaça iminente, tristeza pelos perigos enfrentados e preocupação com entes queridos. Sentiu-se raiva e impotência diante da violência e do conflito. Sentiu-se injustiça, por um castigo sem razão, por ordem divina ou por ruindade humana.
Nestas alturas, porque todos clamam naturalmente por assistência e ajuda, porque cada qual tem o foco na sua situação particular, torna-se impossível acudir a tudo e a todo o lado ao mesmo tempo. É fácil arranjar bodes expiatórios, sem cuidados de serenidade na análise. É preocupante a forma como se mistura o direito à informação, objectiva e isenta, com o aproveitamento das tragédias e catástrofes para explorar os sentimentos mais primários da população. Essa prática, longe de informar ou contribuir para a solução dos problemas, transforma o sofrimento alheio em espetáculo, alimentando um reality show gratuito que se estende por páginas de jornais, telejornais e plataformas digitais. A cada desastre, seja natural ou social, o ciclo repete-se: imagens chocantes, depoimentos emocionais e análises superficiais convergem para capturar a atenção do público de forma sensacionalista. Porém, mais chocante ainda, é o comportamento de alguns políticos (qualquer que seja a sua cor) que, quais abutres virtuais, fazem demonstração de vida com pensamento necrófago, em voo picado sobre cenários de vulnerabilidade, crise ou sofrimento das populações. Promovem uma narrativa de incompetência generalizada desrespeitando os milhares de operacionais no terreno. Parecem mais preocupados com a sua agenda política do que em reconhecer a complexidade das situações, com sentido de responsabilidade, focados na busca de soluções eficazes, em vez de exigências milagrosas e impossíveis. Então, quando se usa o sofrimento alheio como palco para filmezecos de tique-toque, a fingir que se apaga um fogo com um raminho de pinheiro, ou se faz um esforço descomunal para carregar uma caixinha de latas de atum para o telejornal mostrar, é confundir o direito e o dever de questionar e fiscalizar com teatro de opereta.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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