Ganhar a lotaria uma vez é um acontecimento raro. Ganhar quatro vezes, ao longo de menos de duas décadas, levanta inevitavelmente dúvidas. Entre 1993 e 2010, uma mulher norte-americana acumulou quase 19 milhões de euros em prémios de raspadinhas, num percurso que continua a intrigar estatísticos e a alimentar o debate sobre até que ponto o acaso pode ser acompanhado por método.
A história foi divulgada pelo site britânico Unilad Tech, especializado em atualidade e tecnologia, e tem como protagonista Joan Ginther, frequentemente descrita nos Estados Unidos como “a mulher mais sortuda da América”. No entanto, à medida que os detalhes do seu percurso foram sendo conhecidos, essa explicação simples começou a ser posta em causa.
Ao longo de 17 anos, Joan Ginther venceu quatro prémios milionários em jogos de raspadinhas no estado do Texas. A primeira grande vitória ocorreu em 1993, com um prémio a rondar os cinco milhões de euros. Treze anos depois, voltou a ser premiada com cerca de 1,8 milhões de euros num bilhete Holiday Millionaire.
Em 2008, repetiu o feito ao ganhar aproximadamente 2,8 milhões de euros no jogo Millions and Millions. O último e maior prémio surgiu em 2010, quando arrecadou perto de 9,2 milhões de euros com uma raspadinha que custava pouco mais de 40 euros.
No total, os quatro prémios ultrapassaram os 18 milhões de euros. Segundo a publicação, este valor contraria de forma evidente a perceção comum sobre a improbabilidade de vitórias repetidas na lotaria, sobretudo quando se trata do mesmo tipo de jogo.
Um detalhe que mudou a leitura do caso
O que mais chamou a atenção dos especialistas não foi apenas a repetição das vitórias, mas o perfil académico da vencedora. Joan Ginther era doutorada em matemática pela Universidade de Stanford e trabalhou como professora de estatística. Este dado levou muitos a questionar se o sucesso poderia estar ligado a algo mais do que sorte extrema.
De acordo com o Unilad Tech, nunca foi apresentada qualquer prova de fraude, manipulação ou violação das regras. Todas as vitórias foram consideradas legítimas pelas entidades responsáveis pelas lotarias do Texas. Ainda assim, o seu percurso académico passou a ser visto como um fator relevante na análise do caso.
O que dizem os especialistas
O estatístico Alan Salzberg, citado pela mesma fonte, oferece uma interpretação mais cautelosa. Na sua perspetiva, a matemática associada às lotarias não é particularmente complexa e não exige um doutoramento para ser compreendida. No entanto, isso não significa que todos os jogadores tomem decisões da mesma forma.
Segundo Salzberg, a explicação mais plausível passa por uma combinação de fatores. Entre eles, a persistência ao longo de muitos anos, a escolha repetida de jogos específicos e um investimento financeiro elevado em bilhetes. Esta abordagem não elimina o fator sorte, mas pode aumentar marginalmente a probabilidade de sucesso ao longo do tempo.
Este padrão ajuda a explicar porque é que as vitórias de Ginther se concentraram em raspadinhas, um tipo de jogo com probabilidades mais claras e resultados imediatos, ao contrário dos grandes sorteios nacionais.
Estratégia possível, não fórmula garantida
Os especialistas sublinham que esta leitura não transforma a lotaria num investimento seguro nem num sistema previsível. Mesmo com análise, persistência e capital disponível, o acaso continua a desempenhar um papel dominante. O caso de Joan Ginther é apresentado como uma exceção extrema, não como um modelo replicável.
Apesar da fortuna acumulada, a vencedora manteve um estilo de vida discreto. Regressou ao Texas e evitou a exposição mediática, sendo descrita como alguém reservada e generosa com a comunidade local. Faleceu em 2024, aos 77 anos.
Segundo o Unilad Tech, a história de Joan Ginther permanece como um dos episódios mais desconcertantes da história recente das lotarias. Entre sorte improvável e decisões repetidas ao longo do tempo, continua a levantar uma questão sem resposta definitiva. Até que ponto a matemática pode, em casos raros, inclinar um jogo feito para ser imprevisível?
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