Mesmo uma exposição curta à água pode provocar danos sérios num automóvel, muitos deles invisíveis no imediato. Com o aumento da frequência de cheias e inundações em várias regiões do país durante o inverno, cresce também o número de veículos afetados por estes fenómenos. E nem sempre o problema termina quando a água recua.
De acordo com o Razão Automóvel, site especializado em assuntos auto, os danos provocados por uma inundação não se resumem ao aspeto exterior do veículo. Em muitos casos, as consequências surgem dias ou semanas depois, quando componentes essenciais começam a falhar de forma aparentemente inexplicável. Saber o que está em risco e como agir pode fazer a diferença entre uma reparação controlada e uma avaria irreversível.
Motor é o componente mais vulnerável
O motor é, regra geral, o elemento mais crítico quando um carro é apanhado numa cheia. Se o veículo entra em contacto com a água com o motor em funcionamento, existe o risco de ocorrer o chamado calço hidráulico. Trata-se de uma situação em que a água entra no sistema de admissão e chega à câmara de combustão, impedindo o movimento dos pistões.
Segundo explica a publicação, a água é incompressível e, ao entrar num motor em funcionamento, pode provocar deformações internas graves, como empeno de bielas ou danos no virabrequim. Nestes casos, a reparação é muitas vezes inviável, sendo necessária a substituição total do motor.
Mesmo que o carro tenha estado submerso com o motor desligado, a recomendação é clara: nunca tentar ligá-lo sem uma verificação técnica prévia. A simples tentativa de arranque pode transformar um dano controlável numa avaria definitiva.
Eletrónica: problemas silenciosos e persistentes
Os veículos modernos dependem fortemente de sistemas eletrónicos. Centralinas, sensores, módulos de segurança e unidades de controlo estão espalhados por várias zonas do automóvel, muitas vezes em locais baixos.
De acordo com a mesma publicação especializada, a água, sobretudo quando misturada com lama ou detritos, pode infiltrar-se nesses componentes e provocar falhas imediatas ou progressivas. Mesmo após uma secagem aparente, a humidade residual pode causar oxidação dos contactos e erros intermitentes difíceis de diagnosticar.
É por isso que muitos veículos afetados por cheias apresentam problemas elétricos semanas depois, desde luzes de aviso no painel até falhas em sistemas de travagem assistida ou controlo de estabilidade.
Transmissão e componentes mecânicos também sofrem
A água não afeta apenas o motor. Se o nível da inundação atingir os eixos, a caixa de velocidades ou os diferenciais, existe o risco de contaminação dos óleos lubrificantes. Quando a água se mistura com o óleo, forma-se uma emulsão que perde capacidade de lubrificação.
Segundo o Razão Automóvel, circular nestas condições pode acelerar drasticamente o desgaste interno das engrenagens. Por isso, após uma inundação, a substituição de óleos da transmissão e dos diferenciais é considerada uma medida essencial, mesmo que o carro aparente funcionar normalmente.
Ignorar este passo pode resultar em avarias dispendiosas a médio prazo.
Sistema de escape e corrosão invisível
O sistema de escape pode acumular água no seu interior quando o carro atravessa zonas inundadas. Se essa humidade não for eliminada, pode dar origem a corrosão interna ao longo do tempo.
Embora este tipo de dano seja, em regra, menos grave do que os problemas no motor ou na eletrónica, não deve ser desvalorizado. Ruídos anormais, perda de potência ou odores invulgares são sinais de alerta que justificam uma inspeção.
O que pode, afinal, ser recuperado
Nem todos os componentes atingidos por uma cheia ficam automaticamente inutilizados. Sistemas como travões e suspensão estão naturalmente expostos à água e, na maioria dos casos, podem ser recuperados com uma limpeza adequada e uma inspeção rigorosa.
De acordo com o Razão Automóvel, é essencial verificar discos, pastilhas, amortecedores e articulações, uma vez que a presença prolongada de água e sujidade pode acelerar o desgaste ou comprometer temporariamente a eficácia do sistema.
No interior do veículo, bancos, carpetes e revestimentos podem ser recuperados se a intervenção for rápida. O processo implica desmontagem, limpeza profunda e secagem completa, garantindo a eliminação da humidade acumulada. Caso contrário, surgem maus odores, bolores e falhas elétricas em componentes instalados sob o piso.
Também é importante verificar cavidades da carroçaria, como o interior das portas ou zonas do chassis, onde a água pode ficar retida e originar corrosão de dentro para fora, um problema difícil de detetar numa fase inicial.
Quando não vale a pena arriscar
Se o nível da água ultrapassou o tablier ou se o veículo esteve submerso durante várias horas, os especialistas alertam que o risco de danos estruturais e eletrónicos é elevado. Nestas situações, mesmo que o carro volte a funcionar, a fiabilidade futura fica seriamente comprometida.
A regra essencial mantém-se: após uma cheia, nunca ligar o carro sem avaliação técnica. A decisão mais cara, muitas vezes, é a tomada nos primeiros minutos após o incidente.
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