Depois de uma vida inteira de trabalho, Richard Smith, hoje com 81 anos, ainda não conseguiu parar. Vive metade do ano num parque de campismo em New Hampshire, onde trabalha como vigilante, e a outra metade na Florida, onde faz entregas ao domicílio através da aplicação DoorDash. Tudo porque um erro financeiro destruiu o plano que tinha para a reforma, segundo o portal de notícias Business Insider.
Durante mais de três décadas, Richard Smith trabalhou na Eastman Kodak, em Rochester, no estado de Nova Iorque. Começou nos anos 60 e chegou a acumular dois empregos enquanto estudava à noite para sustentar a família. “Gostava de ter posto algum dinheiro de lado naquela altura e deixado render”, admite hoje.
Nos anos 90, surgiu uma oportunidade que mudou o rumo da sua carreira: foi convidado para trabalhar em Hollywood como diretor técnico de um grande laboratório cinematográfico. Mais tarde, aceitou outro cargo na Califórnia, numa universidade que restaurava e preservava filmes antigos. Manteve-se ali até 2009, quando lhe foi oferecido um pacote de reforma antecipada, precisamente na altura em que a economia americana entrou em crise.
O erro financeiro que mudou tudo
Com o dinheiro da reforma, Richard decidiu investir numa conta de reforma autogerida. Mas o que parecia uma aposta segura revelou-se um desastre. “Cometi erros estúpidos e fiz investimentos demasiado arriscados”, reconhece. O resultado foi perder grande parte do que tinha acumulado, refere a mesma fonte.
Sem poupanças suficientes e com poucas perspetivas de rendimento fixo, decidiu adotar um novo estilo de vida. Comprou uma autocaravana de 13 metros e começou a viver entre a estrada e os parques de campismo, uma prática comum nos Estados Unidos conhecida como work camping, que combina trabalho sazonal com vida itinerante.
De Hollywood a vigilante de parque de campismo
Desde 2019, Richard e a mulher passam os verões em New Hampshire, onde trocam algumas horas de trabalho por alojamento e salário. Ele patrulha o parque à noite, das 16h00 às 00h30, ganhando 15 dólares por hora; ela faz limpezas em cabanas e lavandarias. O aluguer mensal do espaço onde estacionam a autocaravana é reduzido para cerca de 200 dólares.
Nos restantes meses, regressam à Florida, onde Richard conduz para a DoorDash, um serviço de entregas semelhante à Uber Eats. Trabalha entre as 15h00 e as 22h00, e tenta atingir cerca de 100 dólares (aproximadamente 85 euros) por dia. “Às vezes consigo mais, mas depois há os gastos com gasolina e manutenção do carro”, explica. Depois de todas as despesas, sobra-lhe cerca de 500 dólares (cerca de 428 euros) por semana.
A saúde ainda o permite continuar
De acordo com a mesma fonte, apesar da idade, o norte-americano mantém-se ativo e relativamente saudável. O médico elogia a sua boa forma física, embora reconheça que o excesso de peso pode tornar o futuro mais incerto. “Ainda conduzo bem, mas evito velocidades altas e deixo passar quem tem pressa”, diz, com humor.
Vive numa pequena localidade junto ao Atlântico, onde gosta de pescar com a mulher e o irmão. Contudo, nunca passam o verão na Florida, por causa do calor e da humidade.
Dívidas que não dão descanso
Hoje, Richard Smith acumula uma dívida de cerca de 350 mil dólares, entre a hipoteca da casa e créditos pessoais. Recebe perto de 3 mil dólares mensais da Segurança Social e tem menos de 20 mil na conta de reforma. “Tento pagar o que posso, mas aparecem sempre despesas, o carro, as cirurgias às mãos, as viagens entre estados. Tudo vai para o cartão de crédito”, lamenta, citado pelo Business Insider.
Mesmo assim, mantém o otimismo. “Se as coisas piorarem, podemos sempre vender a casa e voltar a viver em tempo integral na autocaravana”, diz.
O irmão chega a enviar-lhe anúncios de emprego, e Richard não exclui a hipótese de voltar a trabalhar o ano inteiro. “Afinal, ganhar o Powerball não está a resultar”, brinca.
A realidade portuguesa
Em Portugal, os casos de reformados que continuam a trabalhar também têm vindo a aumentar, embora por razões distintas. Muitos optam por pequenos trabalhos informais, sobretudo em zonas rurais ou no comércio local, enquanto outros regressam a atividades sazonais ou procuram ocupações em part-time.
A falta de literacia financeira e o adiamento de decisões de poupança são fatores comuns a vários países, e histórias como a de Richard Smith, marcada por um erro financeiro, são um aviso sobre a importância de planear atempadamente o período da reforma em qualquer parte do mundo.
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