Nos recreios das escolas portuguesas, as brincadeiras e a conversas entre crianças e os jovens nem sempre ocupam todo o tempo. Alguns defendem que estas interações são essenciais para o desenvolvimento, enquanto outros consideram que certos hábitos e recursos modernos podem interferir com a concentração e a aprendizagem.
Segundo o site especializado em lifestyle, Women’s Health, o fenómeno do uso de telemóveis entre crianças e adolescentes tem vindo a intensificar-se nos últimos anos. Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que 90% dos jovens entre os 10 e os 15 anos possuem um destes dispositivos.
De acordo com o projeto Net Children Go Mobile, plataforma internacional representada em Portugal pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pela Universidade Nova, os alunos portugueses estão entre aqueles com maior liberdade para usar telemóveis nas escolas. Esta realidade explica-se, em parte, pela perceção dos pais de que o smartphone é essencial para segurança e comunicação.
Brincadeira e convívio em risco
Para Mariana Machado, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, muitos encarregados de educação que defendem limitar o uso de telemóveis querem garantir que os filhos tenham tempo e espaço para brincar. A psicóloga clínica Isa Silvestre, em Lisboa, reforça que nos recreios “as crianças e os jovens precisam de interagir cara a cara, ter espaço para serem criativas, brincarem e conversarem”.
A criação de zonas atrativas nas escolas é vista como um passo fundamental para promover a socialização. Mariana Machado considera que os estabelecimentos devem proporcionar espaços que incentivem o convívio e a autonomia dos alunos. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, acrescenta que a preservação e ampliação das áreas verdes é igualmente importante para que os jovens possam experienciar o que significa “brincar na terra”.
Entre distração e aprendizagem
Se por um lado os telemóveis podem apoiar questões de saúde, como o acompanhamento de crianças com diabetes, por outro levantam preocupações sobre distração em sala de aula. Um estudo da London School of Economics concluiu que a proibição de telemóveis levou a uma melhoria de 6,4% no desempenho académico dos alunos.
Segundo Marta Calado, psicóloga de crianças e adolescentes no Porto, o uso de smartphones em contexto escolar está associado a desatenção, procrastinação e dificuldade em gerir impulsos. A especialista acrescenta que a multitarefa digital prejudica a retenção de informação e a compreensão de conteúdos mais complexos, limitando a capacidade de concentração necessária para a aprendizagem.
Ainda assim, alguns profissionais veem no telemóvel uma ferramenta educativa. Joana Duarte Arsénio, psicóloga no Centro de Apoio Integrado da MUSSOC, explica que os dispositivos “podem tornar as aulas mais dinâmicas, através de quizzes, pesquisas rápidas ou trabalhos interativos”. Filinto Lima confirma que professores já pedem aos alunos que levem telemóvel para atividades pedagógicas, nomeadamente nas disciplinas de ciências.
O perigo do cyberbullying
O debate não se limita à aprendizagem. O telemóvel pode também ser uma via para comportamentos prejudiciais, como o cyberbullying. Isa Silvestre alerta para o impacto emocional destes episódios, que podem comprometer o desenvolvimento saudável dos jovens. A especialista sublinha a necessidade de políticas escolares claras e de sessões de sensibilização para alunos, famílias e professores, incentivando a denúncia sem receio.
Segundo a Women’s Health, entre riscos e benefícios, a presença de telemóveis nas escolas portuguesas mantém-se um tema divisivo. Pais, professores e psicólogos continuam à procura do equilíbrio entre segurança, aprendizagem e interação cara a cara, numa realidade em que a tecnologia se cruza cada vez mais com o quotidiano dos alunos.
















